Em meio às guerras do Oriente Médio, lembro de um homem que transmitia mensagens de paz de um barco no Mediterrâneo.
Era o pacifista militante Abie Nathan, judeu nascido no Irã e cidadão israelense que fundou a rádio Voice of Peace num velho barco holandês comprado com a ajuda de outro ativista da paz, John Lennon.
Iraniano e israelense, duas cidadanias hoje em guerra, Abie Nathan transmitia apelos à paz de “algum ponto do Mediterrâneo”, o que o deixava livre de limitações impostas por qualquer país do Oriente Médio, onde rapidamente alcançou a audiência de 20 milhões de ouvintes.

“Sem mais guerra”; “Sem mais derramamento de sangue”, nas vozes do presidente egípcio Anwar Sadat e do primeiro-ministro israelense Menachem Begin, era a vinheta da Voice of Peace, em hebraico Kol HaShalom, muitas vezes seguida por horas da canção “Give Peace a Chance”, que Lennon e Yoko Ono gravaram em 1969, num quarto de hotel em Montreal. A guerra então era a do Vietnã.
(A vinheta de abertura pode ser ouvida clicando neste link: https://www.youtube.com/watch?v=ucCn5Qg-udQ&t=7s )
Ao sair de Abadan, na Pérsia, hoje Irã, Abie Nathan viveu em Bombay, atual Mumbai, na Índia. Ele se tornou piloto da força aérea britânica em 1944 – e, depois, também da israelense, em 1948. Resolveu ficar em Israel, onde trabalhou na companhia aérea El Al e abriu um restaurante em Tel Aviv.
Em 1965, Nathan concorreu ao Knesset (o Parlamento israelense) à frente do partido Nes — Milagre, em hebraico, o que não aconteceu. Aí ele pegou seu avião batizado de Shalom 1 (Paz 1) e voou para o Egito com uma mensagem de paz para o então presidente Gamal Abdel Nasser. Acabou preso em Port Said, em 1966, e depois deportado – mas, ao pousar em Israel, foi preso de novo, acusado de sair do país usando uma rota ilegal.
Nathan fez greve de fome contra as colônias que Israel começava a criar na Cisjordânia, ocupada com a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e iniciou contatos com a Organização de Libertação da Palestina (OLP), proibidos por lei israelense. Por se encontrar com o líder da OLP, Yasser Arafat, em 1991, ele foi condenado a 18 meses de prisão, reduzidos a seis meses pelo presidente Chaim Herzog.
Nathan participou de operações de ajuda humanitária para o Camboja, Bangladesh, Biafra, Colômbia e Etiópia. Em outro protesto antiguerra, destruiu brinquedos militares e os enterrou. Uma vez em que o barco Shalom atracou em Israel para abastecimento, subi a bordo e conversamos. Ele me mostrou o estúdio, me apresentou a locutores que passaram por nós e me disse que já não ficava no barco o tempo todo. Além das maratonas de 24 horas do “Give Peace a Chance”, eu seguia diariamente o programa “A Hora do Crepúsculo”, inspirado na canção Twilight Time, com os Platters, vendo o sol se pôr no Mediterrâneo na praia perto do meu apartamento, em Tel Aviv.
“Ele (Abie Nathan) foi uma das pessoas mais proeminentes e especiais do país… Ele é o homem que dedicou sua vida aos outros e a uma humanidade melhor” – disse dele um dos pais de Israel, Shimon Peres.

Nathan decidiu afundar o barco com a rádio Voz da Paz em novembro de 1993, no momento em que parecia que a paz estava próxima. Trinta anos depois, ela continua distante. A despedida teve um dia inteiro sem parar de canções dos Beatles. De um outro barco, em águas internacionais do Mediterrâneo (foto), ele assistiu o Shalom naufragando lentamente, com transmissão direta de canais de TV do Oriente Médio.
Nathan sofreu um derrame que o deixou parcialmente paralisado em 1997 e morreu em 2008, aos 81 anos. Uma placa “The Voice of Peace” o relembra na praia Gordon, em Tel Aviv.
Não se fazem mais ativistas da paz como antigamente.

