Lembranças do Golã

Assim estava o Golã em 1968

Em 11 de março de 1982, atendi o telefone, em Tel-Aviv, e era Jânio Quadros. Ele tinha ido conversar com Muamar Kadafi, na Líbia, e na escala em Lisboa, voltando ao Brasil, um diplomata o aconselhou: “Você não pode visitar um país árabe, no Oriente Médio, e não passar por Israel”. Então, aqui estava ele.
Já conhecia o ex-presidente. Tinha sido enviado ao exílio com ele em Corumbá, no Mato Grosso. Eu, repórter; ele, punido. Agora era um reencontro: Jânio queria conhecer as colinas do Golã. E lá fomos nós no meu carro.
Duas horas de viagem, Jânio teve tempo apenas de me falar de Kadafi, antes de cair no sono. Não viu a Galiléia, quase primaveril. Nem o lago Tiberíades. Parei num café para acordá-lo porque já íamos subir para o topo do Golã ocupado por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967.
Morei um tempo bem perto do Golã, no kibutz Dafna. Fins de semana, amarrava cervejas e as colocava para gelar na corredeira do rio Dan, que descia das geleiras sírio-líbano-israelenses do Monte Hermon. Subimos uns dois mil metros, até um lugarejo chamado Banias. Um córrego passava por baixo do restaurante em que sentamos. Já sem ressaca, Jânio me pareceu extasiado com a paisagem. Lá em baixo, o Mar da Galiléia, o vale do rio Jordão; no planalto, uns 30 quilômetros adiante, Damasco, a capital da Síria, estava visível.


Golã, 1968, arquivo pessoal

Um ano antes, em 1981, Israel tinha anexado o Golã, com lei aprovada no Parlamento. Um ato isolado, não reconhecido pela ONU. Mas para devolvê-lo, em troca de acordo de paz, como aconteceu com o Sinai, a maioria dos 120 deputados terá que ser a favor. Nas encostas, israelenses começaram a produzir um vinho ótimo, que muitos países jamais importaram porque originário de território ocupado. Os habitantes das colinas são drusos, muitos dos quais amigos de Israel, alguns tão amigos que servem o exército israelense. Os que não são amigos, também não são inimigos de pegar em armas, ao contrário dos palestinos na Cisjordânia e em Gaza. Um druso armado sempre me acompanhava quando arava a terra ao lado de Gaza, no kibutz Reim, no deserto do Neguev.
Levei Jânio a um posto de observação de soldados israelenses. Não havia ainda rebeldes sírios, guerrilheiros do Hezbollah e guardas iranianos que só chegaram com a guerra civil síria, agora nos estertores, depois de sete anos e quase meio milhão de mortes. Ali reinava o silêncio; o perigo era apenas uma lembrança de quando os sírios disparavam nos kibutzim israelenses na planície. Ao estudar a topografia e a distância, Jânio exclamou:
-Mas daqui, com uma passarinheira, acerto qualquer um lá embaixo!
Jânio voltou para o Brasil no dia seguinte. Hoje, 37 anos depois, o presidente Donald Trump reconheceu o direito de Israel às colinas do Golã. Um presente eleitoral para Bibi Netanyahu, que quer se reeleger mais uma vez, em 9 de abril. Outro reforço eleitoral será dado pelo presidente Bolsonaro, que visita Israel no fim deste mês. 

Salvador, 14º lugar mundial

O jornal The New York Times publica sua lista anual dos 52 lugares do mundo que merecem a visita de turistas este ano de 2019. O primeiro “paraíso” é a ilha de Porto Rico, recuperada do furacão Maria que a devastou no ano passado. O segundo lugar coube a Hampi, na Índia, uma das mais ricas cidades do mundo no século XVI. Lá estão mais de mil monumentos preservados, incluindo templos hindus. Santa Barbara, na Califórnia, ganhou o terceiro lugar. Salvador, na Bahia, o 14º, é o único destino brasileiro recomendado. Paris? Não. Na França, o quente deste ano são Lyon e Marseille. Para mim, a surpresa é o Irã, recomendado apesar do perigo de guerra ou conflito interno permanentes. Vale a pena dar uma olhada: texto bom, fotos ótimas. Link: /www.nytimes.com/interactive/2019/travel/places-to-visit.html?em_pos=large&emc=edit_tl_20190112&nl=travel-dispatch&nlid=33543102edit_tl_20190112&ref=headline&te=1

Trump trabalhou para os russos?

(O FBI está investigando, segundo o The New York Times de hoje).



Um livro a cada 12 minutos

Entrou na APPStore um programa que resume livros a 12 minutos de áudio. O resumo pode vir em texto também. Os comentários de quem baixou o “12min” são, até agora, elogiosos. Logo teremos uma geração que leu todos os clássicos, mas dessa forma, rasteira.

Novo na Banca

Dando bandeira

Esta Bandeira do Voto Popular foi desenhada pelo programador Toph Tucker (ex-Businessweek, Twitter, GituHub, Medium…) com um algoritmo que decide o tamanho das estrelas e das listras segundo o número de habitantes dos 50 estados (estrelas) e das 13 colônias originais (listras) que declararam independência do Reino Unido. (via Kottke.org)

Criar asas, e partir.

Aproveito a ideia do escritor japonês Sebuyama, para a revista Kakaku, e crio asas para voar em férias por dez dias. Pousarei num local sem wifi e sinal celular. Até a volta.

Galeria

Fotos de drones campeãs

Este foi o quinto concurso de fotos tiradas com drones. Dronestagram, o seu nome. Mais fotos podem ser vistas aqui: http://www.dronestagr.am/

E se Bibi cair em Israel?

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R7.com

O descoberto “irmão” do presidente Jair Bolsonaro corre perigo: o primeiro-ministro de Israel, Bibi Netanyahu, se indiciado por corrupção antes das eleições que ele próprio antecipou para março, deverá renunciar e não se recandidatar para um quinto mandato. Esta é a opinião de 51% dos israelenses que responderam a uma pesquisa exclusiva do jornal The Jerusalem Post, divulgada hoje, 3/1/2019. Para outros 24%, ele, que é o candidato favorito, poderá, sim, concorrer. E 24% não sabem ainda o que responder.

A expectativa em Israel é de que o procurador-geral Avichai Mandelbit indicie Bibi, o “Rei Bibi” de um filme pronto, depois que ele depuser em fevereiro. O caso de agora, o terceiro, tem a ver com benefícios concedidos à maior companhia de telecomunicação israelense, Bezeq, dona do popular site de notícias Walla, em troca de cobertura positiva, para ele e a esposa, Sara. Por lei, Bibi pode continuar sua vida pública, até ser preso. Há precedentes: um ex-primeiro-ministro e um ex-presidente já cumpriram penas em cadeia.

Os abraços de Bolsonaro e a aclamação de evangélicos em Brasília reforçam a imagem de Bibi, uma preciosidade para a campanha eleitoral. Mas se Bibi não for mais o premiê de Israel em março, como sobreviverá a irmandade brasileiro-israelense? O candidato em segundo lugar, com 14% dos votos, é um ex-chefe da IDF (Força de Defesa de Israel), Benny Gantz, seguido de Yair Lapid, 9%, e de Naftali Bennett. Em último lugar, com 4%, está o líder trabalhista, Avi Gabbay. Nenhum deles irá desprezar a amizade e o apoio do Brasil, mas talvez não concordem com tudo que foi prometido por Bibi.

Galeria

Todas as capas do Presidente

 

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No The Wall Street Journal, o casal Bolsonaro, desfilando de Rolls Royce, foi a foto do alto da primeira página. No El Observador, uruguaio, a foto do presidente agitando a bandeira do Brasil no Parlatório virou pôster, com o título: Entre el miedo y la esperanza. La Repubblica, italiano, texto-legenda para o desfile em carro aberto: Bolsonaro no trono. E Trump celebra. Em Portugal, o destaque era esperado. No Público: A ultradireita chegou ao Planalto. E no Jornal de Notícias: Vamos unir o povo. No The New York Times é preciso procurar o Brazil na capa. Mas lá está ele, no pé da página, uma notinha com foto. Já no The Washington Post, com uma foto 3×4 de Bolsonaro, é a manchete: Populista toma o leme no Brasil. Manchete também do La Nacion, de los hermanos argentinos: Bolsonaro prometió orden, combatir la corrupción y liberar a Brasil del socialismo. No Clarín, Bolsonaro roda a bandeira: vai liberar a Brasil de la corrupción y el yugo ideológico. O Financial Times, com Bolsonaro fazendo continência, e Michelle acenando, lembra que o presidente prometeu lutar contra a corrupção. É a foto central do espanhol El País: Bolsonaro jura el cargo: Brasil y Dios por encima de todo. O ADN, paraguaio, lembra que o Brasil está agora MÁS CERCA DE EE.UU E ISRAEL. A surpresa é israelense. Nada na capa do Haaretz. E no Jerusalem Post tem sim a foto pequena de Netanyahu e Bolsonaro, mas o título é sobre o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, garantindo que a retirada dos Estados Unidos da Síria, não trará consequências para Israel. Os jornais de Cuba, Venezuela e Nicarágua, países convidados desconvidados, não deram nada em suas capas.

 

 

Paz e Neve em Jericó

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Jericó – A festa foi já uma comemoração pelo nascimento de um estado palestino: Biladi, Biladi, cantava a multidão embandeirada com as cores verde, branca, vermelho e preta, a bandeira palestina antes proibida por Israel. Biladi, “nosso país, nossa terra”, continuava a canção: “Quero dar a você, Biladi, todo meu amor e meus sentimentos”.

  O fundo era de tambores na cidade que Josué derrubou com trombetas de chifre de carneiro. trombetasJericó, a mais antiga do mundo, e a primeira oficialmente de uma futura Palestina, teve seu dia de carnaval. Caminhões abriam espaço numa multidão delirante como se fossem trios elétricos baianos. Bandas juvenis marchavam. Recebia-se a imprensa, na entrada da praça principal, com a saudação:

  “Benvindo ao meu país”.

  A população de Jericó ficou tão feliz com a perspectiva de paz que já arranjou nada menos que cinco casas oficiais para “o presidente Yasser Arafat”. Alguns mais emocionados não conseguiram manter-se parados, mesmo dançando, e subiram e desceram com seus carros enfeitados de bandeiras e retratos de Arafat a estrada para Jerusalém.

   Uma façanha: a estrada vai de 250 metros abaixo do nível do mar para 820 metros acima em apenas 20 minutos. Sobe-se do lugar mais baixo do mundo para a maior altitude espiritual da Terra Santa, do sufoco de um oásis para o frescor do Monte das Oliveiras. Não encontraram obstáculos pelo caminho. E buzinaram muito em Jerusalém. A polícia os olhou à distância. No final do dia, israelenses contagiados içaram também suas bandeiras na cidade. E a paz de Washington se refletiu pela primeira vez realmente entre israelenses e palestinos.

  Uma bandeira palestina já tremulava em Jerusalém desde o começo da tarde, na casa do negociador Faissal Husseini, a Oriental House. Depois outras foram aparecendo nos carros, e no final do dia eram o cenário. Os retratos de Arafat também se multiplicaram. Mesmo o inacreditável podia ser ontem fotografado: soldados israelenses posando diante de bandeiras palestinas. Não houve choques. A polícia até desviou o trânsito para dar passagem a uma passeata iniciada diante da Porta de Damasco, na velha Jerusalém. E de cima de um prédio em Jericó outros soldados fotografavam a alegria da multidão dançando na praça.

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Na Casa Branca

  Nenhum telão foi produzido para que o povo acompanhasse o aperto de mãos entre Rabin e Arafat, transmitido ao vivo pela TV israelense. Às 5 horas em ponto, um orador subiu num palanque, e puxou o “Biladi, Biladi”. A assinatura dos primeiros acordos só ocorreu 45 minutos depois, mas ali ninguém ficou sabendo. “Todos meus sonhos estão aqui”, disse Amim Shooman.

  O orador incendiava a festa com notícias quentes. Ele gritou, por exemplo, que “o presidente Arafat” ia pedir ao primeiro-ministro Rabin, na Casa Branca, a libertação de todos os prisioneiros palestinos. Depois, ele prometeu uma mensagem do próprio Arafat para dentro de uma hora. O termômetro subiu mais no oásis, onde as tâmaras e o suco de laranja são inesquecíveis. Vez em quando, ele fazia um anúncio, tipo “Gaza está com Arafat”, ou “toda a Cisjordânia festeja”.

  O estudante Ihab Dawich, com 18 anos, nunca viveu em Jericó sob o domínio de um país árabe, só israelense. “Estou muito feliz”, ele contou. Uma criança, pelo microfone, lembrou aos outros jovens da festa como Israel ocupou a Cisjordânia em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias. Não havia animosidade contra Israel.

   Ao ser sobrevoada por um helicóptero israelense, com fotógrafos, a multidão mostrou o V da vitória e levantou bandeiras. Só não precisava nevar. Mas os militantes do Fatah, o movimento de Arafat dentro da OLP, acharam que ficaria bonito, se nevasse. Então, do alto de um prédio foram despejadas gotas de sabão que lambuzaram lentes de televisão e cabelos dos repórteres, levadas para o lado por um ventilador, e não para baixo. A paz será como essa neve no deserto?

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Os três Nobel da Paz (foto Operamundi)

Era uma vez um furo sensacional

Por quatro meses trabalhei numa exclusiva e sensacional reportagem. Era a minha primeira para televisão. Quando tinha tudo pronto, só faltando mesclar texto e imagens, anunciei à equipe: -Estou derrubando a reportagem. Parem tudo.

Assim começava a reportagem, com este vídeo de 1,35 minuto

Este vídeo do time da Chapecoense decolando para a tragédia já foi muito visto e revisto no Brasil e no mundo, mas o livro de capa vermelha aberto pelo passageiro sentado no corredor da segunda fileira do avião parece ter passado desapercebido.

Veja de novo: até parece que o leitor, ao ver a câmera, quer é mostrar o livro.

O livro é Endgame, A Chave do Céu, de James Frey e Nils Johnson-Shelton. Segundo de uma trilogia, nele e no anterior, O Chamado, seriam narrados dois desastres aéreos – e um deles por pane seca, falta de combustível.

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O vice-presidente de Futebol do Chape, Mauro Luiz Stumpf, o Maurinho, é quem lê o livro no original inglês, embora a tradução em português já fosse vendida desde outubro de 2015. Está nas primeiras das 675 páginas. Como no avião da Lamia, apenas decolando. Destino na ficção e na realidade: a queda, por falta de combustível.

Chapecoense

Foi um colega de trabalho na TV Brasil quem, curioso, procurou saber mais sobre o livro de capa vermelha nas mãos do vice-presidente de Futebol do Chape, o Maurinho.

51PejfjeQjL._SR600,315_PIWhiteStrip,BottomLeft,0,35_SCLZZZZZZZ_ À medida que ia lendo, ele se surpreendia cada vez mais. E me procurou para compartilhar: “Cara, o livro é sobre um avião que cai por falta de combustível!”. Tremenda coincidência, ironia do destino, maravilhosa reportagem, a ficção prenunciando a realidade.

Ele tinha um trecho do livro em que cai o avião de Endgame, ou Fim de Jogo — e lembrava: “Era também o último jogo do campeonato para o Chape”.

FRASES NO LIVRO

Estar em um avião e acima do mundo aumenta o senso de profundidade. O mapa se estende em todas as direções, e seus limites são definidos pelo ponto que pisca.

Falta uma hora para o avião (…) começar os procedimentos de pouso (…) Ele dorme profundamente e não faz ideia do que esteja acontecendo. Se soubesse, ficaria tão extasiado (…) Tão arrebatado quanto. Tão ávido pela morte quanto.

(…) dia em que o destino de todos se tornaria tão desolador (…) quando encarariam

a morte olho no olho.

A gente precisava de mais combustível.

Tem alguma coisa errada (…)

Vamos mudar a rota do avião (…) entendeu? (…) tentando manter a calma.

Vamos ter que pousar para reabastecer de novo.

(…) enquanto estiver apenas reagindo ao que se aproxima, vai dar tudo

certo. Então, é para onde estou levando você. Para o Jogo. Para o Endgame.

Para Jogar. Talvez você esteja pronta para desistir, mas eu não estou pronto para Desistir (…)

O que é Endgame?

Jogo do fim dos tempos.

E você está jogando?

Estou.

Em breve, muita gente vai sofrer (…)

O avião dá uma guinada para trás (…) 

(…) quando o avião dá um solavanco e para (…) Ah, meu Deus (…)

(…) derrubou nosso avião quando teve a chance (…)

Um sinal toca, e os cintos se abrem automaticamente. Suas narinas sentem cheiro de fumaça. (…) iriam morrer.

Cai em queda livre, acende, avança em espiral e segue (…)

(…) grita durante toda a queda, então se ouve um som nauseante, e depois silêncio.

(…) fez uma aterrisagem forçada e afundou (…) quando ficou sem combustível.

A explosão viria em questão de segundos.

Eu vi o local da explosão, e não deixa dúvidas. Ninguém sai daquilo andando (…)

A explosão não é das maiores, porém a floresta zumbe com os estilhaços. Tinidos e estrépitos soam do outro lado do pedregulho, enquanto mancais, parafusos, pregos e estilhaços de metal trituram a floresta. Pedaços de casca de árvore, de folhas, de galhos cortados — tudo isso chove.

A explosão dura somente um segundo, então o silêncio volta a se instalar.

O mundo inteiro deve estar vendo TV hoje. O mundo inteiro menos nós, os Jogadores.

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Os jogadores do livro não jogam futebol. Disputam um jogo de fim do mundo. São descendentes de 12 linhas de ancestrais criados por extraterrestres para habitar a Terra. Quando o Endgame começa eles lutam pela sobrevivência, até que reste só um vivo. O Laboratório Niantic, do Google, fez da trilogia um jogo de realidade expandida. Logo estará nas telas também um filme, produzido pela 20th Century Fox. A editora americana HarperCollins ofereceu um prêmio ao primeiro leitor que decifrasse os enigmas escondidos pelas páginas.

A ficção teria se unido ao real no voo da Lamia com o Chape para Medellin, na Colômbia, em novembro de 2016.

Tentei entrevistar o principal autor de Endgame, James Frey. Conhecia-o por seu livro Um Milhão de Pedacinhos (A Million Little Pieces), que apareceu em 2003 nos Estados Unidos. Recomendado na TV pela influente apresentadora Oprah Winfrey, o livro alcançaria, rapidamente, o primeiro lugar entre os mais vendidos, gênero não ficção. Eram as memórias de um dependente de drogas reduzido a fragmentos.

frey5“Um milhão de mentiras”, denunciou o website The Smoking Gun.  Descobria-se que parte das memórias de Frey não batia com a realidade. Datas de internamento em clínicas, checadas, foram desmentidas. Sua prisão por 87 dias, depois de quase atropelar um guarda, dirigindo sob efeito de crack — puro delírio. Três dos principais jornais americanos, cada qual revelando mais e mais detalhes inventados, obrigaram a editora a mudar a categoria de não ficção para ficção, e ao seu autor admitir, publicamente, ter alterado a própria biografia, para efeito literário. O total de 1.729 leitores pediram, e obtiveram, o dinheiro pago pelo livro de volta.

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Frey (foto acima) negou a entrevista para a TV Brasil. Procurada em Chapecó, a família de Mauro Stumpf não soube dizer nada sobre o livro levado a bordo, edição americana. Em sua página do FaceBook, Maurinho, porém, diz que fala italiano, sem mencionar se lê inglês. A cinegrafista Milene Nunes, que fez as primeiras imagens para o “furo” em gestação, perguntou a um youtuber que resenhou a trilogia se a queda do avião era relevante no enredo do Endgame. Achava coincidência demais.

A resposta que ela recebeu, por e-mail: “Acontece um acidente de avião no primeiro livro, O Chamado, mas não é um acontecimento importante . Muitos acidentes e muitas destruições fazem parte dessa história, nos três livros. Então, acaba sendo só mais um…”

Tentei falar com o tradutor da edição em português. Mas a assessoria de imprensa da editora Intrínseca, no Rio,  propôs que lhe enviasse nossas dúvidas, e uma equipe procuraria respondê-las rapidamente. Mandei a transcrição com que trabalhava havia  quatro meses. O tempo foi passando à espera de uma entrevista com Frey e do envio de um repórter e cinegrafista a Chapecó.

Talvez tenha se perdido ao longo do projeto um detalhe importante, na verdade o principal: a transcrição havia sido montada com pesquisa no PDF de A Chave do Céu, baixada da internet gratuitamente, e a partir de buscas por palavras chaves, como “avião”, “falta de combustível”, “desastre”….  Não me lembro de saber que se tratava de uma montagem com frases pinçadas aqui, ali e acolá no calhamaço de 675 páginas.

Meu associado no projeto escreveu um e-mail:

 “Verifiquei alguns detalhes no livro. Realmente, a história é bem complexa. Conferi com mais tempo alguns trechos e conclui o seguinte:

> A história se passa em vários ambientes, e os jogadores são transportados tanto de avião quanto de helicóptero.

> Sobre falta de combustível: ocorre inicialmente em um avião. (Páginas 199 a 201)

> O que caiu por falta de combustível foi um helicóptero.

Na página 207: “O helicóptero fez uma aterrissagem forçada e afundou no Atlântico, quando ficou sem combustível”. O que cai em espiral é um míssil. Página 410.

De todo modo, abrindo o arquivo PDF do livro e buscando por algumas palavras temos aquelas frases incríveis, que chamam a atenção pela semelhança com o acidente da chapecoense”.

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A Intrínseca fulminou o nosso furo sensacional de reportagem, localizando cada frase da transcrição e seu sentido completamente diferente. Ainda nos alertou: provavelmente tínhamos uma cópia pirata do livro, não confiável, porque a editora não disponibiliza PDFs grátis na internet. Alguns dos exemplos que nos mandou:

>> Cai em queda livre, acende, avança em espiral e segue (…) – Não tem acidente. É um míssil. 

>> grita durante toda a queda, então se ouve um som nauseante, e depois silêncio – Não tem acidente. É uma luta corpo a corpo. Quem está caindo é uma pessoa. 

 >> Fez uma aterrissagem forçada e afundou (…) quando ficou sem combustível. – Não tem acidente. O personagem saiu do helicóptero.

>> A explosão viria em questão de segundos. – Não tem acidente. A “explosão” se refere a um meteoro. 

Eu vi o local da explosão, e não deixa dúvidas. Ninguém sai daquilo andando (…)A explosão não é das maiores, porém a floresta zumbe com os estilhaços. Tinidos e estrépitos soam do outro lado do pedregulho, enquanto mancais, parafusos, pregos e estilhaços de metal trituram a floresta. Pedaços de casca de árvore, de folhas, de galhos cortados — tudo isso chove. A explosão dura somente um segundo, então o silêncio volta a se instalar. <<Não tem acidente de avião.

22084238Era uma vez um furo sensacional, ou uma barriga inesquecível.

Agradecimentos: 

Milene Nunes,

José Vidal Pola Galé, da TV Brasil, e

Andressa Camargo, Editora Intrínseca.

Feliz ChristHanukkah!

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Quando terminou a entrevista, o ex-prefeito de Nablus, Bassam Shakaa (foto), pediu para empurrar sua cadeira de rodas até o quintal. Fazia um ano, em junho de 1982, ele perdera as duas pernas na explosão de uma bomba em seu carro, em atentado perpetrado por um terrorista judeu.

No quintal, Shakaa mostrou o túmulo do pai, do avô, avó, do tataravô e outros ascendentes. Então, arrematou:

-Esta terra me pertence, foi sempre de minha família.

Saí da casa de Shakaa e fui falar com o porta-voz militar, que acompanhava um grupo da imprensa internacional em visita à Cisjordânia. Contei-lhe dos túmulos. Quis saber qual o argumento de Israel para reivindicar as terras ocupadas durante a guerra dos Seis Dias, em 1967. Ele apontou para o Sul, para Hebron, a 78 quilômetros dali.

-Lá está a tumba de Abraão – respondeu.

Na Gruta dos Patriarcas, em Hebron, que os muçulmanos chamam de Mesquita de Ibrahim, estão enterrados outros patriarcas e matriarcas de Israel, como Sara, mulher de Abraão; Isaac e Rebeca; e Jacó e Leia. Só falta Rachel, cuja tumba fica à entrada de Bethlehem, ou Belém. Os judeus ortodoxos apresentam como prova de propriedade das terras, que chamam de Judeia e Samaria, o velho testamento.  É a escritura.

Lembrei desse momento nos meus tempos de repórter no Oriente Médio para ilustrar a minha impotência em responder às ferozes reações ante a resolução do Conselho de Segurança da ONU que condenou os assentamentos judeus na Cisjordânia. Não, não tenho respostas. Nunca as tive. Se alguém as tiver, que as apresentem para, quem sabe?, ativar o processo de paz parado. Discutir divisões ideológicas e raciais, para mim, é só blablablá que não leva a nada. Aqui não se trata de ganhar um debate. Foi por aí que o presidente Obama, a quem até admirava, me decepcionou profundamente.

-Por que os EUA se abstiveram de votar?

Em fim de governo, já em transição, o que pretendeu Obama ao incentivar a retomada de uma resolução já adiada por quem a tinha proposto, o Egito? O que Obama fez em oito anos para sentar à mesa de negociações palestinos e israelenses? Quis peitar o próximo presidente Donald Trump? Vingar-se do premiê Nethanyahu, que fez campanha contra o acordo nuclear EUA-Irã diretamente no Congresso americano, jogando-o para escanteio? Não vejo motivo que justifique uma decisão que herdará seu sucessor, dia 20 de janeiro. Um partido que perdeu as eleições não dará andamento no Congresso à mais uma resolução “sem dentes” — aquelas que não exigem implementação.

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Pelo contrário, israelenses de direita e religiosos, se os conheço bem, vão reagir, pavlovianamente, ampliando os assentamentos, talvez anexando áreas que estavam com status incerto, à espera de definição através de negociações.  Oficialmente, mesmo durante o shabat, o que é uma raridade, o governo já rejeitou a resolução. Agora, numa escalada, a ONU poderá partir para sanções contra Israel. Mas, e Trump? Os palestinos vão discutir um acordo com os israelenses através de decisões do Conselho de Segurança? Por que não cumpriram a primeira de todas, a da Partilha da Palestina com os judeus, em 1948, e preferiram a guerra? Tantas mortos depois, estão querendo agora o que rejeitaram, com o Hamas, Hezbollah e o Irã riscando do mapa o estado de Israel.

Baixo agora minha própria resolução: não vou entrar mais em discussões apaixonadas sobre israelenses e palestinos. Conheço quase todas as versões e respeito quem as defende. Discutir por discutir é inútil. Quero fatos,  a realidade transformadora, ações que façam avançar a humanidade, não as que nos levem à barbárie de Alepo, da Síria, os jihadistas do Estado Islâmico, refugiados morrendo no mar e atentados repentinos, em qualquer lugar.

Hoje é véspera de Natal e de Hanukká, o ChristHanukkah. Que tenhamos uma trégua, uns dias de paz. A todos, boas festas.

Estarei de volta dia 10/1.

 

Cai Alepo, sobe Trump.

 

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Foto: Business Insider

 

A batalha por Alepo está chegando ao fim, com a vitória da aliança síria-russa-iraniana, mas um novo fator embaça a visão do que está por vir — a guerra no sexto ano e com cerca de 300 mil mortos: é Donald Trump.

captura_de_tela_121216_075606_pmO próximo presidente dos Estados Unidos, ao contrário de Barack Obama, não exige a deposição do presidente sírio, Bashar Assad, e nem vê problemas com a presença militar russa em território sírio. Ele quer acabar com o Estado Islâmico em pontos isolados da Síria e do Iraque.
Até a reconquista de Alepo, nesta segunda-feira 12, os jihadistas do EI não foram alvos prioritários da aviação russa. Nem secundários. Na mira estiveram sempre os rebeles sírios, atacados pesadamente para salvar o governo de Assad. Os americanos voaram seus aviões para fora da Síria, então entregue às milícias xiitas do Líbano, Iraque e Irã.

 

patrialatina

Putin

Fugitivos de Alepo diziam estar saindo do “fim do mundo”, exibidos pela tevê estatal síria. Apenas alguns bolsões do lado oriental da cidade ainda resistiam ao assalto, sem hospitais, combustível e os galpões com trigo. É a maior vitória de Assad em toda a guerra civil. Agora ele não precisa concordar com cessar-fogo e negociações da diplomacia internacional.

A União Europeia continua pedindo apenas o fim dos

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Assad

bombardeios aéreos e a proteção dos civis. Depois de impor 230 sanções à Síria, sem nenhum resultado, a chanceler da UE, Federica Mogherini, concluiu que nada mais poderia fazer. Os rebeldes ficaram isolados e, em menos de um mês, foram cercados e vencidos.
Com a eleição de Donald Trump o futuro imediato da Síria não está claro. Assad, para ele, pode continuar presidente, desde que apoie a luta dos Estados Unidos contra o EI e a Al-Qaida, ressurgindo após a morte de Bin Laden.. Mas há um risco: o governo sírio pode cair em poder de grupos islâmicos — o

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Trump 

temor que levou Barack Obama a se aliar com os rebeldes.
A Arábia Saudita, que apoiava os rebeldes, e Israel, na fronteira dessa incerta Síria, não fecham com Trump. Restam as forças dos curdos sírios e iraquianos e os turcos, que combatem os jihadistas do EI nos vazios dos dois países, mas também estão em guerra entre si. O fim da batalha de Alepo pode ser o início de outra guerra.