Guerra em Gaza

Gaza vista do espaço (Foto Nasa)

Israel e Hamas discutem novo cessar-fogo

As negociações para um novo cessar-fogo em Gaza, dadas como mortas, estão emitindo alguns sinais de vida no Egito e no Catar. Israelenses e palestinos reagiram, positivamente, a um primeiro esforço diplomático de ressuscitação.

O Egito diagnosticou “indicações” esperançosas por parte de Israel, que rompeu o cessar-fogo e não o quis estender por mais 42 dias, como previa o acordo original de janeiro.

No Catar, uma fonte palestina declarou à Agência France Presse: “Uma reunião começou esta noite (quinta-feira) entre mediadores egípcios e uma delegação do Hamas para solidificar um cessar-fogo”.

Uma proposta à mesa incluiria a libertação de cinco reféns israelenses por semana, trocados por prisioneiros palestinos. Há 59 reféns cativos do Hamas, dos quais 24 estariam vivos. Aí seriam 12 semanas de cessar-fogo.

Antes, porém, um soldado refém israelense, com cidadania americana, Edan Alexander, deverá ser libertado para que o presidente Donald Trump proclame, desde Washington, a retomada das negociações. Um enviado da Casa Branca já tinha obtido a sua libertação, em negociações diretas e inéditas com o Hamas, em Doha, invalidadas porque os EUA não podem manter contatos diretos com uma organização listada como “terrorista” pelo seu Departamento de Estado.

A sobrevida do novo cessar-fogo, se obtido, não deve durar se Israel não flexibilizar sua posição de que a guerra só acabará com a derrota total do Hamas. Por outro lado, o Hamas exige a retirada israelense de toda a Faixa de Gaza. Um meio termo poderá ser o exílio da liderança palestina em algum país árabe, como aconteceu com o líder da OLP, Yasser Arafat, no Líbano, em 1983, quando ele partiu para a Tunísia num navio de nome emblemático para a Palestina: era o Atlântida, nome da ilha perdida, descrita por Platão no século IV a.C..

Ataque em hospital causou incêndio em Gaza REUTERS/Hussam Al-Masri

O que retirou o cessar-fogo moribundo do leito de morte? A pressão sobre o Hamas cresceu, sob fogo pesado de Israel. Tudo indica que, ao se retirar de Gaza, menos do Corredor Filadélfia, os soldados israelenses plantaram espionagem digital em vários pontos estratégicos. Explica-se, assim, como vários chefes palestinos foram assassinados em poucos dias. A frota de caminhonetes brancas, vistas na invasão de 7 de outubro e nas cerimônias de libertação de reféns, foi totalmente destruída pela aviação e por drones.

Uma das principais razões que devolve o Hamas à mesa de negociações é o protesto dos palestinos de Gaza, cansados de guerra, as casas destruídas, usados como escudos de proteção de combatentes escondidos em túneis. Quilômetros de túneis no subsolo de Gaza, e nenhum abrigo antiaéreo sobre a areia do deserto. O Hamas disse que os protestos inéditos, iniciados há três dias, eram contra guerra. Mas a multidão gritou: “Fora, Hamas; Fora, Hamas”, além de bordões contra Israel.

E o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu? O que o leva a aceitar um novo cessar-fogo? As famílias dos reféns, com milhares de israelenses as apoiando, não parou de se manifestar em Israel, na ONU, na Casa Branca, desde 2023. A sua casa oficial, na rua Gaza, em Jerusalém, vive sitiada por protestos. Ao romper o cessar-fogo, o partido da direita ultranacionalista, Poder Judeu, voltou à coligação do governo, reforçando-o com uma robusta maioria de votos para aprovar o orçamento deste ano, que, se rejeitado, o derrubaria.

Netanyahu tem problemas pela frente, como o Catargate, os milhões de dólares do Catar que transitaram em malas pelo seu gabinete, para o Hamas e para, ao menos, um porta-voz do governo, próximo do primeiro-ministro, que trabalhou a imagem de país amigo de organizações terroristas, em que trabalhadores escravos estavam morrendo, as mulheres sofriam opressão e repressão, para o país que sediou a Copa do Mundo de 2022, agora um mediador da paz e com relações diplomáticas com o mundo todo.

Netanyahu também é réu em três processos de corrupção e está afastando a Comissão de Inquérito independente que vai investigar as falhas que levaram à invasão do Hamas, em outubro de 2023, o quanto pode, porque, certamente, ele será um dos responsabilizados, como o foi a primeira-ministra Golda Meir depois da Guerra do Yom Kippur, em 1973. Netanyahu agora se dedica às demissões do chefe da espionagem interna, o Shin Bet, e a procuradora-geral, que podem lhe trazer complicações. Esta semana, ele passou pelo Parlamento um projeto que dá ao executivo o direito de escolher os futuros juízes. Antes, ele precisava da guerra para se manter no poder; agora, ele tem que libertar os reféns, para acalmar as manifestações em Israel, onde 60% dos eleitores não votariam nele numa próxima eleição.

Guerra em Gaza

Êxodo e protesto contra o Hamas. Em Gaza.

Foto do jornal Yedioth Aharonot
(Foto publicada pelo jornal Yedioth Aharonot)

Mais de 35 mil palestinos já foram embora de Gaza para um outro país, por vontade própria, desde o início da guerra em 2023, e 200 outros, doentes, devem partir para os Emirados Árabes Unidos nesta quinta-feira do aeroporto Ramon, a 18 quilômetros ao Norte de Eilat. Segundo Israel, há milhares de gazenses dispostos a partir nas próximas semanas.
Centenas de gazenses sobreviventes da guerra, que matou quase 51 mil mulheres, crianças, idosos, jovens civis e 20 mil combatentes, iniciaram um movimento inédito na terça-feira, repetido nesta quarta-feira ao meio-dia: marcharam pelas ruínas de Beit Lahia e Beit Hanoun, no norte de Gaza, protestando contra o Hamas. Nos cartazes, bordões como “O sangue de nossas crianças não é barato”, ou “Pare a guerra imediatamente”.
O movimento de palestinos contra o Hamas, que inclui protestos contra Israel, foi batizado de “Intifada do Norte” – e intifada, em árabe, pode ser traduzido por resistência, embora usado também como “agitar” ou “sacudir”. Contra Israel já houve duas intifadas, ou rebeliões. O Hamas, que sempre reprimiu protestos, não impediu as duas manifestações até agora.
O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, está insuflando a Intifada do Norte. Ele disse aos gazenses, ontem, que a única maneira de pôr fim à guerra é a remoção do Hamas e a libertação dos reféns ainda em Gaza, que seriam 59, dos quais 24 estariam mortos. “Aprendam com os moradores de Beit Lahiya”, ele sugeriu, ameaçando novas operações das forças israelenses que vão requerer a evacuação de mais território. “Os planos estão prontos e aprovados”, ameaçou. No final, acusou a liderança “corrupta” e “assassina” de viver em segurança, com suas famílias, dentro de túneis ou hospedados em hotéis de luxo.
Os manifestantes gritavam ontem “Fora, Hamas”, diante do Hospital da Indonésia, e um e outro, por vezes, perguntava para cinegrafistas, como se fossem da rede catariana Al Jazeera, por que não cobriam os protestos, acusando-0s de fidelidade ao Hamas. Os manifestantes prometem estender as manifestações para os bairros com forte presença do Hamas, como a praça Saraya, o campo de refugiados de Jabaliya e a praça Bani Suheila, em Khan Yunis.


A liderança do Hamas acusou Israel de instigar os protestos – e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu respondeu, em Jerusalém: “Os protestos são a prova de que nossa política está dando resultados”. O êxodo palestino, pretendido em larga escala pelo presidente Donald Trump, está acontecendo a conta-gotas, espontaneamente. Mesmo assim, há notícias, não confirmadas, de que enviados americanos e israelenses andam pelo Sudão e Somália em busca de espaço para abrigar o maior número possível de gazenses.
O palestino que quiser partir, e não estiver doente, nem ter dupla nacionalidade, deve fazer o pedido à polícia israelense. Há uma fila de milhares em exame. A pesquisa de antecedentes é rigorosa para impedir a fuga de combatentes do Hamas. As portas de saída são a Ponte Allemby e o posto de fronteira com a Jordânia, Kerem Shalom, ou o Aeroporto Ramon, perto de Eilat.

Espião de Israel chocado com amadorismo dos EUA

(Foto: Big Media/Gazeta do Povo)

Um antigo espião sênior do Mossad, o serviço secreto israelense, declarou ao jornal Haaretz, nesta quarta-feira, que “não se pode confiar no serviço de inteligência dos EUA durante este segundo mandato do presidente Donald Trump”.
Ele acrescentou que o vazamento dos planos de ataque aos Houthis serve de “advertência” para a comunidade de inteligência de Israel e de países aliados. E o qualificou como “um dos incidentes mais amadores que já encontrou” em seus anos de espionagem.

O jornalista Jeffrey Goldberg, editor da revista Atlantic, foi incluído como “JF” na lista do serviço de mensagens Signal, que incluía o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, o secretário de Defesa Pete Hegseth, o diretor da CIA John Ratcliffe e o diretor da Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard.
O comentarista Yossi Melman, do Haaretz, escreveu que Israel poderia também ser afetado pela quebra de sigilo sobre o bombardeio americano no Iêmen, pois seu exército e sua inteligência estavam se preparando para um ataque retaliatório aos Houthis, logo depois o dos Estados Unidos.
Os espiões israelenses e oficiais das forças armadas são proibidos de ter contas pessoais em mídias sociais. Toda comunicação entre eles usa redes fechadas e altamente seguras. Já os EUA têm 18 agências de inteligência, e cada uma com seus próprios protocolos. O Mossad trabalha, intimamente, com a CIA, compartilhando dados secretos, operacionais e análises sobre inimigos comuns, como o Irã, Hezbollah, Síria e Estado Islâmico. Se algum documento vazar, serão expostas as fontes originais e todos os operadores envolvidos.


O jornal lembra que Trump, durante seu primeiro mandato, elogiou a capacidade da inteligência norte-americana em penetrar uma célula do Estado Islâmico na Síria, a um grupo russo que o visitou. Revelou até detalhes operacionais. O jornalista Yossi Melman suspeita que as informações originais teriam a marca do Mossad. O espião que falou ao Haaretz acrescentou: “Essa situação é insana. Não dá para confiar nos EUA. Mas, ao mesmo tempo, somos o rabo, e não podemos abanar o cachorro. Nossa dependência é absoluta”.

The End: Libertado cineasta palestino preso por Israel.

Ballal medicado. Foto do co-diretor israelense.

Novas cenas de “No Other Land” (Sem Chão), o documentário que ganhou o Oscar deste ano, protagonizadas por um de seus quatro diretores, o cineasta palestino Hamdan Ballal, preso ontem depois de espancado por colonos judeus na Cisjordânia ocupada, e libertado na manhã desta terça-feira pelo exército israelense.
Vítima de pedradas, a cabeça sangrando, ele foi acusado de ser o apedrejador que iniciou o tumulto na aldeia em que mora, Susya, em Hebron. As versões do que aconteceu se chocam, dependendo de quem as narra, se colonos ou palestinos. Ele próprio, Ballal, 37, contou que protegia sua casa, durante um ataque de colonos, quando caiu no chão golpeado na cabeça, e dois soldados lhe apontavam seus fuzis.
“Enquanto no chão, um homem continuou batendo em todo o meu corpo” – ele disse ao New York Times, que o entrevistou por telefone.
O estopim também tem duas versões. Um colono surgiu em Susya quando os palestinos encerravam o jejum diário do sagrado mês do Ramadã. Pediram-lhe que se retirasse. E aí surgiram cerca de 20 outros colonos, atirando pedras e quebrando janelas, furando pneus dos carros. Segundo a outra versão, colonos surgiram com ovelhas no pasto que não lhes pertencia, uma provocação, e foram repelidos.
Enquanto detido, os olhos vendados, Ballal conta que soldados punham objetos em sua cabeça, e diziam: “Este é o cineasta que ganhou o Oscar”.
As acusações de Ballal não foram comentadas pelo porta-voz militar em Jerusalém. Os soldados que o prenderam o acusaram de atirar pedras, destruir propriedade e ameaçar a segurança regional. As mesmas suspeitas recaíram contra outros três palestinos detidos com Ballal. Só um israelense, menor de idade, foi detido, e depois liberado. Os outros participantes fugiram com a chegada de um batalhão formado… por colonos.
Ativistas de direitos humanos, muitos norte-americanos, denunciam que o batalhão de colonos raramente reprime, ou prende, os atacantes israelenses. O New York Times desta terça-feira lembra que o presidente Trump retirou as sanções impostas pelo ex-presidente Biden contra colonos violentos.
Outro diretor de No Other Land, Basel Adra, estava em Susya. Ele conta que soldados israelenses e policiais nada fizeram para impedir o ataque dos colonos mascarados, mas procuraram dispersar os palestinos. O documentário premiado com o Oscar conta as mesmas cenas do confronto de segunda-feira, porém antigas. São uma sequela de Sem Chão – II.

Os quatro diretores de “No Other Land” na noite do Oscar

SEM CHÃO

Um dos diretores palestino do filme “No Other Land” (Sem Chão), vencedor do Oscar de Melhor Documentário de Longa Metragem deste ano, Hamdan Ballal, foi “linchado” por cerca de 20 colonos israelenses mascarados em Susya, perto de Hebron, na Cisjordânia Ocupada, às seis da tarde local (13h no Brasil) de segunda-feira.
A ambulância que levava Ballal para um hospital foi parada por soldados que o retiraram e o prenderam. Palestinos que testemunharam o tumulto disseram que o pelotão enviado à Susya era formado, principalmente, por jovens judeus de colônias da região de Hebron. Carregavam pedras e facas.
O ataque começou quando um colono surgiu à porta de uma escola em Susya. Quando os moradores pediram que ele se retirasse, surgiram uns 20 outros colonos atirando pedras, furando tanques de água, roubando câmeras de segurança e quebrando janelas de carros. Eles fugiram à chegada dos soldados. Era a hora em que os palestinos quebravam o jejum do mês sagrado do Ramadã.
O co-diretor israelense de No Other Land, Yuval Abraham, postou, na plataforma X, que Ballal, 37 anos, foi “linchado” e ferido na cabeça e no estômago. Ele não sabia dizer para onde o levaram. Tarde da noite, um porta-voz militar informou que ele estava detido para questionamento, com três outros palestinos. A advogada que os representa, Leah Zemel, disse que, antes, o trio recebeu tratamento médico, e, depois, seria levado para um centro militar. No confronto de pedradas, um israelense também foi ferido
O documentário vencedor do Oscar foi filmado durante cinco anos, entre 2019 e 2023, em Masafer Yatta, na Cisjordânia ocupada. O seu enredo inclui muitas situações de ataques de colonos a palestinos, e demolições de casas por tratores israelenses, sob a alegação de que foram levantadas em “Área C”, proibida tanto para construções palestinas ou judaicas, segundo os Acordos de Oslo. O documentário também retrata a relação de amizade entre um palestino e israelense.

O co-diretor Hamdan Ballal

Na noite da entrega do Oscar, antes de anunciado o prêmio para o documentário dos diretores Ballal, Yuval Abraham, Basel Adra e Rachel Szor, vários colonos vandalizaram a cidade do filme, Masafer Yatta. Desde a invasão do Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou 1.200 pessoas e provocou uma guerra que se expandiu em múltiplos fronts, Israel aumentou a pressão na Cisjordânia, ocupada durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e prendeu 40 mil palestinos.

AS DUAS GAZA DE ISRAEL

(Na Faixa de Gaza, os mortos já passam de 50 mil)
(Na rua Gaza, residência de Benjamin Netanyahu, em Jerusalém, aumenta o número de manifestantes que exigem a sua saída.)

Israel está reocupando as ruínas de bairros e cidades de onde havia se retirado em Gaza, durante a frágil trégua de dois meses rompida na última terça-feira. A nova ofensiva matou 673 palestinos, um terço dos quais crianças, elevando para 50.021 o número de mortos em 17 meses de guerra.
Com a ajuda humanitária bloqueada, cortada a energia para a dessalinização da água do mar, e novas ordens de deslocamento aos palestinos que armaram tendas no lugar de suas casas destruídas, Gaza voltou a ser o “inferno” que o presidente Donald Trump propôs transformar em Riviera do Oriente Médio.
Da tarde de sábado até o anoitecer do domingo, mais 41 pessoas foram mortas, entre elas um popular líder do Hamas, Salah al-Bardawill, que rezava com sua esposa em al-Mawasi, em Khan Yunis, neste mês sagrado do Ramadã. Outros altos funcionários civis do Hamas também foram assassinados, numa série de alvos seletivos, entre eles o primeiro-ministro interino Essam Al-Da’alis. A lista de mortos do Ministério de Saúde de Gaza não distingue civis de militares. Israel calcula ter matado cerca de 20 mil combatentes.
O Crescente Vermelho da Palestina comunicou ter perdido contato com uma de suas equipes de paramédicos em Rafah. A Defesa Civil de Gaza partiu para tentar resgatá-la, mas seus socorristas também ficaram retidos.
O Comissário-Geral das Nações Unidas, Phillippe Lazzarini, postou no X a advertência: “Cada dia sem comida aproxima Gaza de uma crise aguda de fome”.
Israel justifica o fim da trégua como forma de pressionar o Hamas a devolver 59 reféns israelenses, dos quais 24 estariam vivos. Mas não há negociações para novo cessar-fogo. O enviado da Casa Branca para o Oriente Médio, Steve Witkoff, disse à Fox News, neste domingo, que foi “enganado” pelo Hamas no início deste mês. Ele achou que sua proposta de estender a trégua até 19 de abril, em troca da libertação de cinco reféns vivos por centenas de prisioneiros palestinos, tivesse sido aceita. Mas não: o Hamas colocou à mesa a entrega de um refém americano-israelense vivo, e mais quatro mortos, numa negociação inédita, direta, entre um funcionário do governo americano e líderes do Hamas, em Doha, no Catar. Israel exigiu 11 reféns libertados em vez de cinco.
“Infelizmente, a guerra se tornou a alternativa”, lamentou Witkoff.
Há outra Gaza, em Israel. É a rua Azza (Gaza, força ou coragem, em hebraico, alusão ao mitológico Sansão, que foi cidadão de Gaza). Na rua Azza, no bairro Rehavia, em Jerusalém, fica a residência oficial do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. E para lá foram muitos dos manifestantes que protestam contra o reinício da guerra em Gaza, pedem prioridade para a libertação dos reféns e estão querendo a prisão de Netanyahu por ter tentado demitir o chefe da espionagem interna israelense, Ronen Bar, na sexta-feira, e, neste domingo, promoveu um voto de desconfiança à procuradora-geral Baharav-Miara, primeiro passo para demiti-la também.
“Um suspeito não demite um investigador” — a palavra de ordem surgiu em cartazes nos protestos de domingo em Jerusalém e Tel-Aviv. Em carta aos ministros que a estão fritando, Baharav-Miara disse que o governo pretende estar “acima da lei”. O primeiro-ministro Netanyahu, réu em três processos de corrupção, pivô de um escândalo de milhares de dólares do Catar enviados aos palestinos e desviados para o Hamas, o Catargate, e acusado por críticos de ter reiniciado a guerra para se manter no poder, enfrenta ameaças de greve geral, a Justiça e manifestações cada vez maiores.

Israel está reocupando as ruínas de bairros e cidades de onde havia se retirado em Gaza, durante a frágil trégua de dois meses rompida na última terça-feira. A nova ofensiva matou 673 palestinos, um terço dos quais crianças, elevando para 50.021 o número de mortos em 17 meses de guerra.
Com a ajuda humanitária bloqueada, cortada a energia para a dessalinização da água do mar, e novas ordens de deslocamento aos palestinos que armaram tendas no lugar de suas casas destruídas, Gaza voltou a ser o “inferno” que o presidente Donald Trump propôs transformar em Riviera do Oriente Médio.
Da tarde de sábado até o anoitecer do domingo, mais 41 pessoas foram mortas, entre elas um popular líder do Hamas, Salah al-Bardawill, que rezava com sua esposa em al-Mawasi, em Khan Yunis, neste mês sagrado do Ramadã. Outros altos funcionários civis do Hamas também foram assassinados, numa série de alvos seletivos, entre eles o primeiro-ministro interino Essam Al-Da’alis. A lista de mortos do Ministério de Saúde de Gaza não distingue civis de militares. Israel calcula ter matado cerca de 20 mil combatentes.
O Crescente Vermelho da Palestina comunicou ter perdido contato com uma de suas equipes de paramédicos em Rafah. A Defesa Civil de Gaza partiu para tentar resgatá-la, mas seus socorristas também ficaram retidos.
O Comissário-Geral das Nações Unidas, Phillippe Lazzarini, postou no X a advertência: “Cada dia sem comida aproxima Gaza de uma crise aguda de fome”.
Israel justifica o fim da trégua como forma de pressionar o Hamas a devolver 59 reféns israelenses, dos quais 24 estariam vivos. Mas não há negociações para novo cessar-fogo. O enviado da Casa Branca para o Oriente Médio, Steve Witkoff, disse à Fox News, neste domingo, que foi “enganado” pelo Hamas no início deste mês. Ele achou que sua proposta de estender a trégua até 19 de abril, em troca da libertação de cinco reféns vivos por centenas de prisioneiros palestinos, tivesse sido aceita. Mas não: o Hamas colocou à mesa a entrega de um refém americano-israelense vivo, e mais quatro mortos, numa negociação inédita, direta, entre um funcionário do governo americano e líderes do Hamas, em Doha, no Catar. Israel exigiu 11 reféns libertados em vez de cinco.
“Infelizmente, a guerra se tornou a alternativa”, lamentou Witkoff.
Há outra Gaza, em Israel. É a rua Azza (Gaza, força ou coragem, em hebraico, alusão ao mitológico Sansão, que foi cidadão de Gaza). Na rua Azza, no bairro Rehavia, em Jerusalém, fica a residência oficial do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. E para lá foram muitos dos manifestantes que protestam contra o reinício da guerra em Gaza, pedem prioridade para a libertação dos reféns e estão querendo a prisão de Netanyahu por ter tentado demitir o chefe da espionagem interna israelense, Ronen Bar, na sexta-feira, e, neste domingo, promoveu um voto de desconfiança à procuradora-geral Baharav-Miara, primeiro passo para demiti-la também.
“Um suspeito não demite um investigador” — a palavra de ordem surgiu em cartazes nos protestos de domingo em Jerusalém e Tel-Aviv. Em carta aos ministros que a estão fritando, Baharav-Miara disse que o governo pretende estar “acima da lei”. O primeiro-ministro Netanyahu, réu em três processos de corrupção, pivô de um escândalo de milhares de dólares do Catar enviados aos palestinos e desviados para o Hamas, o Catargate, e acusado por críticos de ter reiniciado a guerra para se manter no poder, enfrenta ameaças de greve geral, a Justiça e manifestações cada vez maiores.

Israel à beira da guerra civil

A iminente guerra civil em Israel, anunciada pelo jornal francês Libération deste sábado, ganhou uma trégua até 10 de abril, decretada pela Suprema Corte de Justiça, que congelou o seu último estopim: a demissão do chefe do Shin Bet, a espionagem interna israelense, Ronen Bar, pelo governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

A guerra externa de Israel, porém, cresceu neste sábado, depois de uma primeira chuva de foguetes do Líbano desde dezembro. Foram seis foguetes — três interceptados e três que não cruzaram a fronteira sul-libanesa. Houve também um míssil balístico disparado pelos Houtis, no Iêmen, que se revelou um fiasco: caiu na Arábia Saudita, sem ligar as sirenes de alarme israelenses.

Os seis foguetes libaneses são um mistério: não têm dono até agora, anoitecendo no Oriente Médio. O Hezbollah, o principal suspeito, disse que não foi ele. “Reiteramos nosso compromisso com o cessar-fogo e apoiamos o Líbano na reação a essa perigosa escalada sionista”. As forças israelenses responderam com fogo de artilharia e a aviação, nas colinas Hamames e na cidade de Khiam, em Nabatieh. Foram cerca de 200 ataques, incluindo os de sexta-feira contra bases aéreas do antigo regime sírio de Bashar al-Assad, a T4 e a de Palmyra, na região central da Síria.

O maior dano causado pelos foguetes anônimos do Líbano foi o de reavivar o temor dos moradores de que permanecem inseguros em suas cidades fronteiriças, principalmente em Metula e Kiryat Shmona. Cerca de 60 mil habitantes fugiram dos foguetes do Hezbollah, diários, a partir de 8 de outubro de 2023, um dia depois da invasão do Hamas que matou 1.200 israelenses, e muitos ainda não voltaram, esperando a estabilização do cessar-fogo. Prefeitos da região questionaram o general Ori Gordin, do Comando Norte, que declarou, faz poucos dias, que não via por que os refugiados não retornavam às suas casas. “Você ainda acha isso?” — quiseram saber.

O prefeito de Metula, David Azulay, declarou que não vai permitir “a normalização dessa situação”, a de cessar-fogo interrompido por foguetes. “Isso é um fracasso, é a política de contenção que existia antes de 7 de outubro”. Mas não só os israelenses protestaram. O primeiro-ministro libanês Nawaf Salam não gostou dos disparos dos foguetes, que podem “arrastar o Líbano à uma nova guerra”. Afinal, o Líbano tem agora um governo livre da pressão e opressão do Irã e da Síria, exercidas pelo Hezbollah.

“Todas as medidas de segurança e militares devem ser tomadas para mostrar que o Líbano decide sobre questões de guerra e da paz”, disse Salam. O exército libanês informou ter encontrado e desmantelado as rampas de lançamento dos seis foguetes.

Fim do Shabat, ao anoitecer do sábado, as ruas de Israel foram tomadas por manifestantes protestando contra a demissão do chefe do Shin Bet, Ronen Bar, barrado por liminar da Suprema Corte, e do próximo ameaçado de demissão pelo primeiro-ministro Netanyahu, talvez neste domingo, a procuradora-geral Gali Baharav-Miara.

Muitos manifestantes conclamaram uma greve geral, apoiados pelo líder do partido Os Democratas e pelo chefe da oposição, os dois Yair — um Golan e outro Lapid. O Fórum das Famílias dos Reféns e Desaparecidos exigem a libertação dos 25 reféns vivos ainda com o Hamas, em Gaza. E todos querem novas eleições.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu resiste. Tentou afastar na sexta-feira, e não o conseguiu, ainda, o chefe do Shin Bet, Ronen Bar, que está investigando um escândalo no coração do governo, o Catargate, já com dois funcionários do alto escalão já presos. Ele quer submeter a Justiça ao poder executivo — logo ele, que responde por três processos de corrupção em andamento. Desafia a Lei como se fosse o presidente Donald Trump. Também vetou uma comissão de inquérito independente sobre a falha que permitiu a invasão do Hamas em 7 de outubro, e que, certamente, o indiciará como seu principal responsável. E retornou à guerra em Gaza, que lhe garante a sobrevivência política, ao trazer para a coligação os votos dos extremistas e ultranacionalistas do partido Poder Judeu, do ministro Itamar Ben-Gvir, que renunciou na trégua de janeiro e agora foi reinstalado no governo, irregularmente.

Os jornais online israelenses mostravam na noite de sábado impressionantes multidões em vários pontos de Israel. E publicavam os discursos de reféns libertados, de familiares de reféns cativos e de líderes políticos. A manchete do jornal Libération está correta: Israel está à beira de uma guerra civil.

Trigo Manchado de Sangue

Na Terra Prometida, testemunho de um momento de paz numa história feita de guerras.

Às 6h30, encobertos por cerca de 5 mil foguetes disparados de Gaza por 20 minutos, centenas dos cerca de 3 mil terroristas do Hamas e da Jihad Islâmica Palestina (PIJ) que invadiram Israel por terra, ar e mar, penetraram no kibutz Tel-Reim. A luz vermelha que daria até 15 segundos para que seus 422 habitantes corressem para os abrigos não acendeu. Tiros e granadas alertaram para o ataque, entre gritos de fugitivos do festival de música Supernova, onde foram assassinados 364 jovens que dançaram a noite toda.

Do trator no deserto do Neguev ao massacre de 1.200 israelenses e a captura de 251 reféns pelo Hamas, em 7 de outubro de 2023, transcorreram 56 anos unidos por uma relação de causa e efeito. Em 1967, na Guerra dos Seis Dias, Israel conquistou Gaza e o deserto do Sinai, do Egito; a Cisjordânia, da Jordânia, com a bíblica Jerusalém, sagrada para o Islã, o Judaísmo e o Cristianismo; e as Colinas do Golã, da Síria, ampliando seu território de 20.720 km2 para 73.635 km2, e assumindo a tutela de 3,1 milhões de palestinos.

Com um radinho de pilha em Tel-Reim, quando meu amigo druso não o levava em nome do socialismo do kibutz, ouvia as notícias, em inglês e francês. O principal assunto eram os territórios conquistados, que deveriam ser trocados por paz.

À espera da paz, os israelenses os invadiam, como turistas., e não eram hostilizados. Que judeu não queria conhecer a terra de seus ancestrais, a Judeia e Samaria, os nomes bíblicos da Cisjordânia, a Terra Prometida? Ou rezar no Muro das Lamentações? — o último vestígio do antigo Templo de Herodes, o segundo local mais sagrado do judaísmo, abaixo das mesquitas de Al Aqsa e Domo da Rocha, o terceiro lugar mais sagrado do islamismo. Gaza logo se tornou a oficina de carros dos israelenses, com preços muito abaixo dos cobrados em Tel-Aviv.

Havia políticos em Israel que propunham correções territoriais antes da devolução de terras, pretendendo mais espaço estratégico para o aeroporto internacional Ben Gurion; e uma unanimidade cobiçava a anexação Jerusalém. Outros sugeriam criar colônias na Cisjordânia, Gaza e Golã, condenadas pela ONU e consideradas “obstáculos para a paz” pelos EUA. No final, só o deserto do Sinai foi devolvido para o Egito, com o acordo assinado em 1978 pelos prêmios Nobel da Paz Anuar Sadat e o primeiro-ministro Menachem Beguin, que dizia que não devolveria um grão de areia do deserto.

Nos 56 anos desde 1967, mais de 700 mil judeus foram viver em 146 colônias plantadas na Cisjordânia, onde deveria brotar a Palestina. O impasse que incentivou a colonização foi cimentado pela Liga Árabe ao adotar os três “nãos” em Cartum, três meses do fim da guerra: “não” ao reconhecimento de Israel, “não” a negociações e “não” à paz.

O Hamas (“Zelo”, em árabe; “Violência”, em hebraico) quer a destruição de Israel — e não um acordo de paz. A sua carta de fundação de 1988 decreta: “A Palestina é uma pátria islâmica que nunca poderá ser entregue a não-muçulmanos”. E um texto extra corânico de Maomé complementa: “O mundo só conhecerá a redenção final e a ressurreição dos mortos quando os muçulmanos conseguirem aniquilar todos os judeus, ou convertê-los ao Islã.”

O Hamas nasceu da Irmandade Muçulmana, fundada em 1928 pelo ideólogo islâmico Hassan al-Banna, que pregava a volta ao mundo muçulmano do século VIII com o extermínio da civilização ocidental, em geral, e a dos Estados Unidos, em particular, por sua “licenciosidade demoníaca e arrogância pecaminosa”. Foi ela que assassinou o presidente Anuar Sadat, do Egito, em 1981, por causa do acordo de paz que ele assinou com Israel. Acusada de tentar um golpe contra o presidente sírio Hafez al-Assad, em 1982, cerca de 500 “irmãos” foram assassinados no massacre de 10 a 25 mil civis sírios em Hama, ao norte de Damasco. Os jornais só publicaram notinhas. É que o simultâneo massacre de palestinos em Sabra e Chatila, em Beirute, dominou as manchetes na imprensa mundial, com 500 a 3.500 mortos. O saldo dos dois massacres é incerto mais de 40 anos depois.

Em Gaza, em 1987, a Irmandade Muçulmana foi rebatizada de “Haraqat al-Muqawame al-Islamiya”, ou HAMAS, o “ramo palestino da Irmandade Muçulmana”. O comando dos palestinos de variadas facções estava unificado na OLP (a Organização de Libertação da Palestina), de Yasser Arafat, um dos fundadores do Fatah, em 1959, que se converteria de inimigo mortal a amigo e parceiro de Israel, em 1988, ao aceitar a solução de dois estados para o conflito israelense-palestino. Com o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, que titubeou em lhe dar a mão na Casa Branca, ele assinou os acordos de Oslo, em 1993.

Dirigido pelo xeque tetraplégico e quase cego Ahmed Yassin, o Hamas ganhava cada vez mais popularidade em Gaza por prestar assistência social à população. Opunha-se à OLP e à divisão da Palestina com Israel. Em 1995, um jovem judeu ortodoxo de extrema direita, Yigal Amir, assassinou Rabin, enquanto ele entoava uma canção de paz num comício na Praça dos Reis de Israel, em Tel Aviv. Um ano depois, em 1996, o líder da direita Benjamin Netanyahu era eleito primeiro-ministro, cargo que ocupa hoje pela sexta vez.

Em comum, Amir, Yassin e Netanyahu se opunham à solução de dois estados. Há uma lei no Oriente Médio que dispõe que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Seguindo-a, o governo de Israel começou a usar o Hamas como um contrapeso à OLP, já enfraquecida com a morte de Arafat, em 2004, e por denúncias de corrupção. Em 2005, Gaza foi entregue aos palestinos. Nas eleições de 2006, o Hamas venceu o Fatah e o expulsou para Ramallah, na Cisjordânia, com uma guerra civil. A causa Palestina passou a ter dois interlocutores, um a favor de negociações com Israel, e outro, pela sua destruição.

Eis que a solução de dois estados foi resgatada pelo presidente Joe Biden, em 2023. E como brinde para que fosse aceita ele oferecia a normalização de relações com a Arábia Saudita tão ambicionada por Israel. Netanyahu não teve como rejeitar a iniciativa americana. Mas também não a aceitou.

Os sauditas faziam questão de algum progresso palpável na questão palestina. Só que Israel estava amotinado pela decisão do governo de Netanyahu, formado por uma coligação mais à extrema-direita de todos os tempos, de subordinar as decisões da Suprema Corte de Justiça ao Parlamento, que teria o poder de revogá-las. Para muitos israelenses, tratava-se de um golpe de estado. E a maioria, inclusive reservistas, foi para as ruas protestar, durante dez meses.

Nos túneis de Gaza, o líder do Hamas, Yahya Sinwar, ficou diante do seguinte dilema: a Autoridade Palestina está envolvida nas negociações entre Arábia Saudita e Israel, e ele, o Hamas, não — foi abandonado. E mais: nunca Israel revelou-se tão vulnerável a um ataque, absorto nos protestos opondo seculares e religiosos, direita e esquerda.

O Hamas vinha se mantendo propositadamente tão bem-comportado a ponto de militares israelenses sugerirem premiá-lo com a admissão de mais palestinos de Gaza para trabalhar em Israel. Secretamente, porém, já fazia mais de dois anos que o líder das brigadas palestinas Izz ad-Din al-Qassan, Mohammed Deif, elaborava um plano de invasão às cidades e kibutzim da fronteira a que batizou de “Inundação Al Aqsa” (“Al Aqsa Flood”), em memória à invasão de soldados de Israel à mesquita Al Aqsa, para desalojar jovens entrincheirados com pedras e fogos de artifício, em maio de 2021. Foram 15 dias de pandemônio na Cisjordânia, com bombardeios contra mísseis de Gaza e 250 palestinos mortos.

O comandante Deif, 58, sobreviveu a sete ataques de Israel, perdeu um dos olhos e foi ferido em uma das pernas. A sua esposa, o filho de sete meses e a filha de três anos, morreram em ataque aéreo israelense, em 2014. Em 2023, foi a vez do irmão e de dois familiares, e a casa do pai, destruída. Conheciam-no por “Homem das Sombras”, porque vivia nas sombras, e a única foto dele, além de uma com máscara e outra aos 20 anos, era sua própria sombra projetada numa parede.

O dia para abrir o dique da Inundação Al Aqsa foi escolhido por ser um feriado religioso, Shemini Atseret, o “oitavo dia da convocação” após os sete do Sukot, que comemora a proteção de Deus aos judeus que fugiram da escravidão no Egito. Além de feriado, era Shabat. Milhares de soldados gozavam de licença. De repente, a barragem de 5 mil mísseis, às 6h30, assustou. O sistema de defesa aérea Iron Dome não interceptou tantos mísseis de uma só vez. Mas eles miravam a distração de Israel.

De Gaza, drones voaram para explodir postos de observação já do lado israelense. Destruíram câmeras e sensores sofisticados. Milhares de homens do Hamas detonaram a fronteira, ou a derrubaram com tratores. Muitos tinham a missão de eliminar soldados que guardavam posições destacadas em mapas bem precisos encontrados em bolsos de palestinos mortos.

Por quase duas horas, cerca de 3 mil terroristas do Hamas penetraram, livres, em Israel, em suas picapes brancas, motos, bicicletas, paragliders motorizados, barcos e lanchas — uma invasão por terra, mar e ar.

A Inundação Al Aqsa transbordava de sangue — o ódio represado desde a Nakba, a “Tragédia” de 1948, como a independência de Israel foi traduzida em árabe. Alguns milicianos faziam selfies ao lado dos corpos de quem acabavam de matar para enviar à família e amigos em Gaza. Em vários kibutzim, filhos foram mortos diante dos pais, e mulheres mortas depois de estupradas, bebês queimados, casas saqueadas e incendiadas. Quem conseguiu correr e se trancar nos abrigos antiaéreos também não escapou, as portas arrombadas e granadas atiradas para dentro.

O massacre maior ocorreu no festival de música Supernova, ao lado do kibutz Tel Reim (“A Colina dos Amigos”). A festa atravessou a noite e ia animada, já dia claro. De repente, a barragem de mísseis riscando o céu azul de traços brancos. Todos pararam para ver. E surgiu o inesperado: tiros e granadas, e corpos caindo no descampado — 364, o total de mortos. O estacionamento era uma armadilha: quem corria para lá, morria. Motoristas mortos aos volantes bloquearam as saídas, baleados enquanto tentavam pegar a estrada. Dois rapazes, Geva, 20, e Shaked, 23, que fugiram para o kibutz Tel Reim pulando cadáveres, ligaram para o pai, o chefe de polícia Eyal Aharon. Ele partiu para salvá-los. Pelo caminho encontrou soldados confusos à espera de ônibus que não chegavam, caos e pânico, e as primeiras barreiras militares. Ele fez inúmeras escalas para salvar vítimas de emboscadas do Hamas, ou recolher caronas que queriam combater os invasores.

À medida que chegava à fronteira de Gaza, Aharon foi percebendo a dimensão do que sucedia. Era o mais trágico dia de Israel desde sempre, ou dos judeus desde o holocausto. Em Tel Reim, os filhos estavam encurralados. Soube pelo celular que um deles tinha sido baleado duas vezes numa perna. Quando se preparava para tentar o resgate, alguém o segurou pelo ombro. O comandante de um pelotão que acabava de chegar lhe disse: “Deixe com a gente; vamos pegar seus filhos”. Os filhos sobreviveram, e ele foi honrado como herói pelo socorro prestado na estrada.

Às 8h23, duas horas desde a Inundação Al Aqsa, Israel declarou estado de alerta. Mais de 350 mil reservistas começaram a ser mobilizados. A aviação fez sua primeira blitz em Gaza, para onde os terroristas do Hamas voltavam com 251 reféns, alguns feridos e outros mortos, valiosos para troca com prisioneiros palestinos. Uma refém quase nua foi exibida como troféu na boleia de uma picape, sob aplausos de uma multidão. No dia seguinte, Israel declarou estado de guerra. E o Hezbollah, no sul do Líbano, comemorou disparando mísseis contra cidades do norte israelense, obrigando 60 mil de seus moradores a se deslocarem para Sul. E por “solidariedade”, os disparos continuaram, diários.

“Por que Israel, dos 195 países do planeta, está sozinho em ser condicional, como se sua existência dependesse da boa vontade das outras nações do mundo?” — perguntou o escritor israelense David Grossman, em um artigo sobre a invasão do Hamas. Ele, que já perdera o filho, Uri, na guerra do Líbano, em 2006, completou: “Os judeus não chegaram à terra de Israel por conquista, mas buscando segurança; e sua poderosa afinidade com esta terra tem quase 4 mil anos; foi aqui que eles emergiram como uma nação, uma religião, uma cultura e uma língua”. O editor da revista New Yorker, David Remick, conta que ficou chocado ao ouvir israelenses lhe dizerem: “Não somos mais israelenses; somos judeus”.

As referências a Gaza, na Bíblia, parecem atuais: “Por isso meterei fogo aos muros de Gaza, fogo que consumirá os seus castelos” (Amós 1:6-10). “Porque Gaza será desamparada, e Ashkelon ficará deserta” (Sofonias). A primeira menção está no Gênesis, localizando Gaza na fronteira de Canaã e “na direção de Sodoma e Gomorra”. Gaza vem do hebraico Az, forte, e talvez o “forte” aqui tenha sido Sansão, que pediu, traído por Dalila: “‘Deixe-me morrer com os filisteus’. E ele se curvou com toda a sua força; e a casa caiu sobre os senhores, e sobre todo o povo que ali estava…” (Juízes,16:30).

Em árabe, Gaza é “Tesouro”. Muitas de suas ruas têm o mesmo nome, Al Awda — O Retorno. O retorno ao que se tornou Israel, de onde muitos foram expulsos na Guerra da Independência, em 1948. Um palestino me mostrou a chave da casa que tinha em Ashdot e a escritura do tempo do Mandato Britânico. Em outra ocasião, em Nablus, na Cisjordânia, o prefeito Bassam Shakaa, sem as pernas e os braços, amputados num atentado terrorista judeu, pediu que o empurrasse na cadeira de rodas até o quintal de sua casa. E mostrou: “Ali estão enterrados meu pai, avô e tetravô. Esta terra me pertence”. Ao sair, parei na Administração Militar, e cobrei uma resposta. O porta-voz apontou para Hebron à distância: “Lá está enterrado Abraão”.

No dia seguinte à invasão a Israel, o primeiro-ministro Netanyahu advertiu aos não integrantes do Hamas, entre os 2,1 milhões de habitantes de Gaza: “Saíam daí agora. Nós estaremos em toda parte, e com toda a nossa força”. E assim foi, e está sendo. Quase um ano depois, 49 mil palestinos estão mortos, a maioria civis, com mulheres e crianças contando 2/3 das vítimas. Israel inclui nesse total 20 mil combatentes, que não são singularizados pelo Ministério da Saúde do Hamas. Feridos, quase 100 mil. Os deslocados alcançaram 90% da população, ou 1,9 milhões. Entre os israelenses, morreram 340 soldados.

Gaza voltou à sua condição de ruínas, uma das cidades mais conquistadas e destruídas no mundo, desde os tempos bíblicos. No terceiro mês da invasão, em janeiro, um órgão da ONU, com base em imagens de satélite, registrou: 22.131 estruturas arrasadas, 14.066 severamente danificadas e 32.950, moderadamente, num total de 69.147 casas, prédios, escolas, hospitais e instalações do Hamas.

Cada bombardeio israelense com alvo militar preciso, e munição selecionada para evitar vítimas e danos colaterais, causa, no mais das vezes, uma tragédia. O Hamas se esconde por baixo de áreas residenciais, sob mesquitas e hospitais. Os moradores de prédios recebem um telefonema ou mensagem alertando para um ataque iminente, dando-lhes tempo de fugir.

O assassinato do “Homem das Sombras”, Mohammed Deif, custou 90 vidas, em 13 de julho. Ele morreu porque saiu de seu túnel em Khan Yunis para a luz do dia, algo raríssimo. Ao que se soube, teria um encontro. E ele próprio escolheu um local de sua infância, al-Mawasi. Mas alguém avisou Israel. E logo surgiu um caça que despejou nele a bomba que abre cratera no solo. Foi seu oitavo atentado, o último. Junto, morreu Rafaa Salameh, comandante de uma brigada do Hamas, alguns seguranças e dezenas de civis.

Deif virou mártir, herói para os palestinos do Hamas. A sua herança inclui o “metrô de Gaza”, de que seria um dos idealizadores. São 500 quilômetros de túneis, completados ao longo dos anos, ao custo de 10 milhões de dólares. Alguns trechos têm 18 metros de profundidade. Os primeiros abertos, em 2007, serviram para contrabandear armas e material de construção, por baixo dos 17 quilômetros de fronteira com o Egito, conhecida por Corredor Filadélfia, o mesmo do impasse para o acordo de cessar-fogo, pela insistência de Israel em patrulhá-lo com seus soldados.

No “metrô de Gaza”, blindado contra bombardeios aéreos, estaria o cativeiro de cerca de 100 reféns, os restantes dos 251 sequestrados. Formariam um escudo dos líderes do Hamas no QG com computadores, luz elétrica e sistema de ventilação. De suas saídas, as “estações” que são buracos camuflados no deserto, partiram emboscadas contra soldados israelenses. Uma extensão desembocava perto de um kibutz dentro de Israel. Em alguns trechos podiam se concentrar 200 homens armados. Em outros, circulavam caminhões e blindados. Havia arsenais de mísseis. Um atirador punha a ponta do lançador para fora, apertava o gatilho e desaparecia fechando a tampa, da cor do deserto. Os israelenses procuravam o local do disparo, e não o encontravam.

O Hamas construiu o “metrô de Gaza”, mas nenhum abrigo antibomba para a superfície, uma das mais densamente populadas do mundo. Os civis abrigaram-se em hospitais, escolas e mesquitas fugindo dos bombardeios, mas seguiam alvos de bombas, com o Hamas no subsolo. Criaram-se áreas de proteção humanitária. E foi numa delas que o “Homem das Sombras” morreu.

O escritor David Grossman lembrou um ditado do filósofo Gershom Sholem, fundador do estudo moderno da cabala, o misticismo judeu: “Todo sangue flui para a ferida”. E ele agrega: “Assim Israel se sente. O medo, o choque, a fúria, o luto, a humilhação e o desejo de vingança, as energias mentais de uma nação inteira — todas elas não param de fluir para a ferida, o abismo no qual ainda estamos caindo”.

Em Israel, as manifestações contra o premiê Netanyahu viraram rotina. Acusam-no de sabotar os acordos de libertação dos reféns acrescentando itens inaceitáveis para o Hamas. Os protestos crescem com a adesão dos israelenses que denunciam que Netanyahu prolonga a guerra para se manter no poder, imune a dois processos de corrupção e suborno que podem condená-lo, e ainda para se livrar da responsabilidade do grande fracasso de segurança que permitiu a invasão do Hamas — logo ele, eleito como “Mister Segurança”.

Por causa das guerras em Gaza e no Líbano, mesmo que Israel não as tenha iniciado, os judeus da diáspora se sentem acuados. Uma onda de antissemitismo aflorou no mundo. Os campi universitários e ruas de vários países ficaram em favor da Palestina “do rio até o mar”. Nove embaixadores foram embora de Tel Aviv batendo a porta. O Tribunal Penal de Haia julga uma acusação de genocídio em Gaza. E Israel vai se tornando um país pária no mundo, isolado pelos excessos de sua retaliação com milhares de mortos civis, crianças e mulheres. A relação privilegiada com os EUA entrou em declínio.

Véspera do primeiro aniversário, a Inundação Al Aqsa está secando. Em Gaza, 22 dos 24 batalhões do Hamas foram dizimados. Aos sobreviventes, resta a opção de uma guerra de guerrilhas.

No Líbano, o Hezbollah foi decapitado: seu líder há 32 anos, o xeque Hassan Nasrallah, morreu soterrado sob as ruínas de 8 toneladas de bombas, depois da sequência de assassinatos de seus principais comandantes e da explosão de pagers e walkie talkies de suas tropas. Só os Houthis iemenitas, entre os membros do Eixo da Resistência criado pelo Irã, reagiram com um míssil balístico, abatido por Israel.

E no 361º, a guerra chegou à sua origem, o Irã, o patrocinador do Hamas, do Hezbollah, dos Houthis e de milicias no Iraque e na Síria: 181 mísseis balísticos disparados contra Israel. A próxima volta da espiral, com a ponta inicial em Gaza, espera a retaliação israelense. Lembra Beirute arrasada, 1982, Yasser Arafat partindo para o exílio na Tunísia, num navio chamado Atlântida, o continente perdido. A última vez que o encontrei foi em 1994, em Gaza. Ele então dizia que iria plantar uma Singapura no deserto. Era próprio dele: buscar o ideal, perdendo o possível. O meu trigal floresceu. Quando parti de Israel, no final de 1967, as espigas chegavam à minha altura.

Eliane Brum

Correspondente

de guerra.

Na Amazônia.

Este texto foi originalmente publicado na Revista Imprensa

A repórter Eliane Brum mostra de sua janela o rio Xingu, lá longe, correndo azul onde acaba o verde da floresta. Entre os dois, observador e observado, há algo em comum: a renovação constante, apesar de represados pela hidrelétrica de Belo Monte e pelo olhar condicionado do curso da vida. Mas há momentos em que ambas as comportas se abrem.

Eliane Brum aprendeu a se desprender de si própria para ver e ouvir com total atenção e isenção, como se fosse uma página em branco a ser marcada. “Sou uma escutadeira e olhadeira” —orgulha-se. Mais que uma ferramenta de trabalho de jornalista, é também uma postura de vida. Aqui pode estar uma explicação para sua produção original, única e em permanente mutação que já lhe rendeu 70 prêmios internacionais e nacionais, entre os mais cobiçados por jornalistas. E agora, ela lançou o seu nono livro, “Banzeiro Òkòtó (pronuncia-se com ^ nos ós), Uma Viagem à Amazônia Centro do Mundo”.

Brinquei com Eliane, em nossa primeira conversa virtual, que sabia qual era o verdadeiro segredo de seu sucesso: é que ela passou a infância bebendo água de sua cidade natal gaúcha, Ijuí, que em guarani quer dizer “Águas Divinas”. Só podia ser isso, um milagre. Ela riu. 

Eu a vi em mais de 30 entrevistas ao vivo pelo lançamento do seu novo livro. Mesmo às perguntas muito repetidas ela respondeu pacientemente,sem se incomodar, com visível laringite, audível tosse e uma coceira insistente nas costas — são os mosquitos lembrando que na Amazônia todos têm um corpo. 

Durante nossa teleconversa, surgiu um dos dois gatos, o Capitu, ou Capetu; um galo cantou várias vezes perdido em fusos horários; os três cachorros latiram muito, e o barulho de uma motosserra reinou no ar: “Você está desmatando?”, provoquei. Kkkk. Não: ela está preparando a casa em que vai viver com o marido britânico Jonathan Watts, que chega em dezembro para ficar 11 meses, em licença do jornal The Guardian, para escrever um livro. “Comprei madeira de demolição. Qualquer outra, aqui, é da floresta, mesmo que certificada, e não a uso”. Um gole no chimarrão, e ela diz: “Vou lhe mostrar a vista da janela”.

Lá longe, o Xingu…

“Sou uma escutadeira e olhadeira” 

Lá longe no tempo, Eliane, aos cinco anos, viu o pai, Argemiro Jacob Brum, ser “humilhado” pelo prefeito de Ijuí. Primeiro da família a ser alfabetizado, ele se tornou professor de Português, História, Geografia e Contabilidade, e um dos fundadores, em 1957, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFI), a pioneira do noroeste do Rio Grande do Sul, em 1985 reconhecida como universidade pelo Ministério da Educação. Foi “a primeira da Nova República”. Uma escola rural estava ligada à FAFI, ao tempo da ditadura. O prefeito das “Águas Divinas”, Emídio Odósio Perondi, da Arena, taxou-a de “subversiva”, porque seguia o método Paulo Freire e ainda respeitava o calendário das colheitas, e a passou para o poder municipal administrar.

“Foi a primeira vez que vi meu pai humilhado”, contou Eliane em sua maratona de entrevistas pelo lançamento de Banzeiro Òkòtó. “Pensei que tinha que fazer alguma coisa, que não podia permitir que meu pai fosse humilhado. Decidi então por fogo na Prefeitura”.

Naquela noite, Eliane não dormiu. Antes que alguém acordasse, lá foi ela para o outro lado da praça de sua casa, onde os pais a proibiam de ir. Ali ficava a Prefeitura. Um, dois, todos os fósforos, nenhum acendeu o incêndio. Ela voltou frustrada do seu “ímpeto revolucionário”, mas também aliviada. “Meu irmão depois me explicou que no cimento não dava”.

Foi aí que a primeira chama do jornalismo começou a queimar Eliane. “Descobri que jornalismo é o meu jeito de não pôr fogo no mundo. Que escrevo para não matar e morrer.” Aos oito anos, ela matou uma baratinha. Só se aliviou da culpa escrevendo “A autobiografia de uma barata”, o seu primeiro texto, guardado ainda hoje num caderno de capa vermelha. E de novo constatou: “Sempre digo que escrevo para não matar e para não morrer”. Aos nove anos, Eliane cometeu a sua primeira poesia, “muito ruim”, numa manhã de chuva supermelancólica. “Aquilo me mostrou que escrever era um ato de vida, um ato de fazer viver, de poder estar viva e de lutar pela vida e por tudo aquilo que é vivo. Essa experiência com a palavra pariu a mulher que eu sou hoje”.

A infância “foi um terror” para Eliane. “Escrevia para não cortar os pulsos. E ia deixando os pedaços de papel pela casa, como uma espécie de pistas que meu pai ia recolhendo. Aí, um dia, ele veio com a notícia de que ia publicar. Eu fiquei toda orgulhosa. Ao mesmo tempo, me senti nua. Depois disso parei de escrever por uns tempos, por causa desta exposição das minhas vísceras. Só voltei na adolescência. Parei quando fui mãe. E voltei quando virei repórter”.

Eliane foi mãe de Maíra aos 15 anos. “Fui uma adolescente bem terrível”, lembrou. Tantas constatações de que seria jornalista na vida, e ela acabou prestando vestibular para Biologia. Ia se inscrever também para Informática, na PUC, quando soube, na fila, que tinha muita matemática. Aí entrou para jornalismo. E fez História também.

Ainda estudante, ela escreveu uma reportagem sobre as filas que todos enfrentamos durante a vida. E aí, sem filas, ei-la catapultada para estagiar na redação do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Só saiu de lá onze anos depois, convidada para a revista Época, onde ficou outros dez.

Muito do que se tornou Eliane não deve ser atribuído apenas às Águas Divinas. O pai, Argemiro, foi fundamental. Alfabetizado por uma professora negra, Luzia de Figueiredo Neves, a quem a família Brum deixa uma flor no túmulo todos os anos, ele não só se tornou “professor emérito” do Rio Grande do Sul, em 1992, e um dos fundadores e diretor da Universidade de Ijuí, a Unijuí, como também escreveu 40 livros, entre eles “O Desenvolvimento Econômico Brasileiro” (Vozes), reeditado 30 vezes. Morreu de AVC, aos 86 anos, em 2016.

“Quando minha família me pediu um obituário, tive de imediato uma queimação no estômago. Antes de meu pai cessar de respirar, eu me despedi dele. No final da tarde de 4 de agosto, logo depois de assistir ao jogo Brasil X África do Sul, ele teve o primeiro AVC. No hospital teve o segundo, e entrou em coma. Morreria menos de 24 horas depois. Assim, quando me despedi dele, talvez ele já não me ouvisse. Mas eu me despedi, e agradeci a ele por ter me dado a palavra. Meu pai me deu a palavra de tantas formas diferentes. E quando ele morreu senti que as palavras silenciaram em mim. Se as palavras sempre haviam sido insuficientes para dar conta da vida, como dariam conta daquela morte?”

No obituário, Eliane lembrou como Vanyr Burtet, a mãe, viu o pai quando tinha 13 anos, e decidiu: “Este vai ser meu”. E foi mesmo. “Começaram a namorar quando ela tinha 15 anos, depois que ela mandou um ‘correio elegante’ sutil como uma pedrada: ‘Se meu amor for correspondido, serei a mulher mais feliz do mundo’. E foi. Esta data é conhecida lá em casa como ‘o dia do tijolaço’. Estavam há 65 anos juntos e ainda comemoravam todas as efemérides de seu romance. No aniversário ‘de conhecimento’, a mãe ganhava rosas. O banco de praça onde namoravam foi transferido para o museu. Enquanto existiu um certo poste, o visitavam periodicamente para rememorações. Andavam de mãos dadas e dormiam de conchinha, vencendo por amor as dores na coluna.”

Outra morte que mexeu profundamente com Eliane foi a de Ailce Oliveira Souza, uma merendeira de escola, em julho de 2008. “Me arrebentou”, ela disse numa entrevista. Era uma reportagem para a Época. Por 115 dias ela acompanhou a morte se aproximando, e chegar. “O que Ailce me deu é algo para sempre. E algo raro: ela confiou em mim a ponto de me deixar testemunhar o fim de sua vida e contar uma história que ela jamais leria”. Sobre a morte de Marielle Franco, assassinada em 2018, no Rio, ela pergunta diariamente pelas redes sociais, logo ao acordar: “Quem mandou matar Marielle? E por quê?”

Ailce Oliveira Souza: 115 dias até a morte.

A melhor reportagem, para Eliane, é sempre a última. Mas se ela tiver que destacar alguma outra além dos últimos dias de Ailce, escolherá a marcha da Coluna Prestes, que refez em 44 dias, em 1993. Por 25 mil quilômetros ela entrevistou uma centena de pessoas que lhe deram uma versão até então desconhecida, a do “povo do caminho”, ou “o avesso da lenda” — não a de rebeldes, nem a de governistas. É marca dela: tirar da mesmice o singular, o novo do já conhecido. O Zero Hora soube aproveitar esse potencial de sua repórter: deu-lhe um espaço onde ela pôde contar os “meus desacontecimentos”, aos sábados. As crônicas foram reunidas no livro “A Vida que ninguém vê” (Arquipélago, 2006). E quando ela foi embora do jornal, não houve quem a substituísse.

Outro traço de Eliane é o de seguir em frente, sem se acomodar ao que já fez. Da palavra impressa, pulou para o cinema. Ela co-dirigiu três dos quatro documentários que fez: “Uma História Severina”, de 2005, premiado 17 vezes, no Brasil e exterior, e mais “Gretchen Filme Estrada”,”Laerte-se” e “Eu+1: uma jornada de saúde mental na Amazônia”. Pulou também para a palavra falada, convidada a dar palestras na Itália; em Madri; no PEN World Voices Festival, em Nova York; em dois eventos criados pelo escritor Salman Rushdie; uma série em Frankfurt, Munique e Giessen, na Alemanha; na Universidade da Flórida, em Miami; na de Dartmouth, em New Hampshire, e em Harvard, onde falou sobre “A Amazônia e a criação de futuro”.

Eliane decidiu ser freelancer, chefe dela mesma, dona dos prazos e tamanhos de seus textos, em 2010, e três anos depois começou a escrever colunas para o jornal espanhol El Pais. Mas foi em 2017 que tomou uma das decisões mais fundamentais de sua vida: a de mudar-se para o centro do mundo — para ela, Altamira, o front da destruição da maior floresta tropical do planeta. Repórter tem que estar onde está a notícia. E nada mais importante, hoje, que o colapso do clima. Ela já tinha ido a Amazônia várias vezes como enviada especial a partir de 1998, quando escreveu sobre a rodovia Transamazônica para o Zero Hora. Agora, seria como uma correspondente de guerra, e de sua trincheira avistaria o Brasil e o mundo.

Foto de Lilo Clareto

“Escolhi habitar o centro do mundo”, ela explicou. “Há anos defendo, junto com outros, a necessidade de deslocar o conceito do que é centro e do que é periferia. Num planeta em colapso climático, os centros são os enclaves naturais de vida, como oceanos e florestas tropicais, aqueles cuja sobrevivência é essencial para barrar nossa própria extinção num planeta que superaquece. É também nesses centros que estão as pessoas que por milhares de anos conviveram com a natureza sem destruí-la, sendo natureza elas também. Como jornalista, eu queria estar no centro do mundo e contar o planeta desde o centro.” Ela também é militante ativa em movimentos sociais. Foi uma das fundadoras, e participa ativamente, do Liberte, o Futuro e do Amazônia Centro do Mundo — uma parte global, com ativistas de diferentes países, cientistas, pensadores, indígenas, quilombolas, ribeirinhos etc., e outra local, no Médio Xingu, que junta diferentes organizações e pessoas avulsas. Mas ela não atua em nenhuma organização formal, porque aí seria complicado conciliar com o jornalismo.

Não é que Eliane pula de uma missão a outra assim de repente. Ela vai se preparando, maturando a estratégia, e tem que sentir uma comichão dentro do corpo, um “incômodo”. Ela me disse que “as melhores mudanças na minha vida vieram pelo incômodo”. Hoje, talvez, a palavra mais apropriada seja banzeiro, o redemunho de “brabeza” que a atraiu no rio Xingu e que agora carrega em suas entranhas. Ela também está se “reflorestando”, identificada com a floresta. E amazonizando-se. O vocabulário denota o grau de empatia entre ela e o seu admirável mundo novo. Em contrapartida, ela vai observando que verbos como duvidar, comparar, confrontar ou testar estão sendo trocados por acreditar. “As pessoas passaram a ler a realidade da mesma forma que leem a Bíblia”, ela escreveu ao comentar o Nobel da Paz de 2021 concedido a dois jornalistas. “Destruir a linguagem é tática para ganhar o poder”, concluiu. A crise da imprensa seria sequela do rompimento da palavra, agravado pelo negacionismo. Quem acredita em Bolsonaro? Quem acreditou em Trump? A quantas mentiras gravíssimas já demos ouvidos? 

Eliane estava andando com a psicanalista e amiga Ilana Katz por Altamira, em 2016, quando lhe disse, “sem saber de onde vinha aquela voz”: “Vou me mudar para Altamira”. E lá veio ela, de mala e cuia de chimarrão. Quem largou tudo para segui-la foi seu parceiro fotógrafo Lilo Clareto, que “se encantou em onça” ao morrer de Covid-19, em abril. 

Lilo, o que “se encantou em onça”.

Banzeiro Òkòtó tem uma dedicatória a Lilo e traz uma galeria de suas fotos da Amazônia. Eliane responsabiliza Bolsonaro, diretamente, pela morte dele e de grande parte dos mais de 600 mil mortos, por causa do negacionismo que equiparou a pandemia a uma “gripezinha”, ofereceu cloroquina como antídoto, pregou a desobediência ao distanciamento social, à máscara e ao confinamento, e ainda espalhou que a vacina provocava Aids. Ela defende que Bolsonaro seja julgado por extermínio, na população geral, e por genocídio, no caso dos indígenas, especialmente pela pesquisa realizada em mais de três mil normas federais, cuja conclusão é de que o presidente e seu governo executaram um plano de disseminação do vírus para obter imunidade de rebanho.

Além de se reflorestar, Eliane também se tornou a voz da Amazônia gritando “socorro!” O desmatamento (recordista em outubro), incêndios, grileiros, garimpeiros, a hidrelétrica de Belo Monte (a licença por renovar) e a mineradora canadense Belo Sun, que projeta a maior mina de ouro a céu aberto do mundo, na Volta do Xingu, estão levando a Amazônia ao ponto de não retorno. É “o minuto antes da meia-noite” — declarou o primeiro-ministro britânico Boris Johnson na abertura da recente COP26, em Glasgow, para governantes de 197 países. “Estamos cavando nossas próprias covas” — arrematou o secretário-geral da ONU, o português António Guterres. 

Banzeiro Òkòtó “é um chamado à maior luta da trajetória de nossa espécie na única casa-planeta que temos, uma luta contra a autoextinção que só poderá ser vencida se formos capazes de nos tornarmos outro tipo de gente…”

Quando teleconversamos, Eliane vestia uma blusa com fotos da pintora mexicana Frida Kahlo. As duas se parecem, inspiradas na natureza e no questionamento de gênero, classe, raça e identidade, uma com traços, outra com palavras. Disse-lhe que temia por sua vida, afrontando tantos poderes, grileiros e garimpeiros, em defesa de povos-floresta, quilombolas, ribeirinhos e refugiados de Belo Monte, hoje miseráveis na periferia de Altamira. Lembrei de Chico Mendes e Dorothy Stang, ambos assassinados. Ficou em silêncio por um momento, depois concordou: “Eu sei que corro risco. Mas também sei que o meu risco é infinitamente menor do que de todas essas lideranças que estão com seus corpos na linha de frente na floresta”. O tempo mais perigoso do ano está começando agora na Amazônia: o Ministério Público Federal, Defensorias (da União e do Estado) e as ONGs vão se esvaziando pelo recesso do Natal e ano novo. Para quem está marcado para morrer, a alternativa é procurar refúgio, porque a bandidagem corre solta. Os grileiros chegaram ao poder. Estão nas prefeituras. Estão no executivo. Seus crimes foram legalizados.

Numa entrevista ao vivo, o jornalista Breno Altman, do Ópera Mundi,perguntou se a emergência social não seria maior que a climática. Para Eliane “não há nada superior à emergência climática. Ela não está acima, ou abaixo de nada. Atravessa tudo. Jornalista, hoje, é um jornalista climático, ou não é jornalista”. E dá o exemplo da grande imigração em massa de refugiados climáticos. O refugiado dirá que está fugindo da fome ou da violência. Mas, se questionado um pouco mais, vai explicar que o clima mudou, veio a seca — e com ela a fome e a violência. Uma frase da sueca Greta Thunberg volta-lhe sempre à memória: “Nossa casa está pegando fogo”. E nós? “Nós ficamos sentados no sofá”. O veterano jornalista Ricardo Kotscho considera Eliane “a melhor repórter do Brasil, embora escreva num jornal espanhol, El Pais”. E acrescenta: “De lá, do meio da selva amazônica, ela consegue enxergar melhor do que nós o que está acontecendo no país…”

Pergunte-se a Eliane o que, afinal, é òkòtó, e ela prefere que a resposta seja encontrada no livro. Com meu espaço no fim, pulo para a última pergunta que fiz a Eliane: se ela, como as outras vezes em que estava perto de uma mudança, não estaria sentindo agora um “incômodo”, o banzeiro a puxando para um novo desconhecido. Ela respondeu “não”, porque “estou longe de completar meu processo de reflorestamento e tenho um monte de planos. Estou só no início”.


Livros de Eliane Brum

Uma breve história dos mercenários

Grupo de mercenários na África

São mercenários. Foram soldados, veteranos de guerras que continuam na luta, agora por dinheiro, contratados por empresas privadas que os alugam para missões especiais em vários países, como golpes de estado, proteção a multinacionais em regiões hostis, a navios em águas com piratas e a bilionários inseguros. Até grupos terroristas os contratam.

A atriz e ex-Embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas, Mia Farrow (foto), planejou enviar mercenários para pôr fim ao genocídio em Darfur, no Sudão, em 2008, mas não concluiu o acordo que negociava com a empresa americana Blackwater, e afinal limitou-se a arrecadar dinheiro para um socorro humanitário.

O aluguel de mercenários é um negócio que cresce muito no mundo. Duas empresas, a americana DynCorp International, e a britânica Armor Group, têm até ações nas bolsas de Wall Street e da London Stock Exchange. Difícil estimar quanto vale esse mercado, certamente bilionário, porque as transações orbitam paraísos fiscais, ou usam criptomoedas — e muitas vezes os pagamentos são em ouro ou diamantes, como nos países africanos em que reina hoje uma poderosa contratante russa de mercenários, a Wagner.

Desde o governo Bill Clinton a Casa Branca tem preferido os mercenários aos próprios soldados. Entre 2007 e 2012, o Departamento de Defesa gastou 160 bilhões de dólares com exércitos privados.

O professor de Estratégia da Faculdade Internacional de Assuntos de Segurança, do Departamento de Defesa dos EUA, Sean McFate, ex-paraquedista e ex-chefe de uma empresa privada de mercenários na África (foto), explica que um batalhão de infantaria custa 110 milhões de dólares por ano, enquanto o equivalente alugado sai por 99 milhões de dólares. Com uma diferença: em tempos de paz os soldados continuam recebendo o soldo, mas os mercenários, não.

O grupo sul-africano Executive Outcomes, já extinto, recebeu 1,2 milhão de dólares por mês para acabar com uma rebelião em Serra Leoa, na África Ocidental, e o conseguiu, enquanto a ONU pagava 47 milhões de dólares para uma força de paz inoperante. Teve dois mil combatentes quando treinava as forças armadas de Angola para encerrar décadas de conflito com o grupo guerrilheiro angolano UNITA. Implodiu por corrupção, em 1993.

Exército de aluguel tem outra vantagem: os mortos não vão ensacados para os países que os contrataram. São estrangeiros. Governos os ignoram e jornalistas não os encontram para entrevistas, “mídia-fóbicos” e clandestinos. Não existem para as Convenções de Genebra, que tratam das leis internacionais de Direito Humanitário. O silêncio beneficia a todos e mantém o negócio atrativo e em ascensão. Os americanos só souberam que havia mais mercenários na guerra do Iraque, 53 mil, do que soldados, 35 mil, quando um grupo da empresa Blackwater matou 17 civis na praça Nisour, em Bagdá — um massacre que escandalizou o mundo. Soldados de aluguel, em inglês, são chamados de “soldier of fortune”, “hired gun” e “contractors”.

Guerras na Crimeia, em dois tempos distintos.

Desde a tomada da Criméia pela Rússia, em 2014, mercenários de 50 países se enfrentam na Ucrânia. No terceiro dia da atual invasão russa, o chanceler ucraniano Dmytro Kuleba publicou um apelo a voluntários no Twitter. Em pouquíssimo tempo, cerca de 20 mil estavam inscritos para a “Legião Internacional de Defesa Territorial da Ucrânia”, a maioria da Europa, com mil alemães e 200 croatas, e Estados Unidos, 500 da República de Belarus, alguns japoneses e até brasileiros.

Voluntários, não mercenários, eles têm que pagar as próprias passagens. Os veteranos de guerras foram direto para o front. Outros, sem nenhuma experiência, para campos de treinamento, ou para tarefas logísticas e funções civis de ucranianos mobilizados para o exército. Como não falam a língua, são separados em grupos em que predomina o inglês, o francês, o espanhol, russo e alemão.

Um dos brasileiros que se inscreveram, Tiago Rossi, instrutor de tiro em Maringá, no Paraná, disse a agência pública de radiodifusão alemã Deutsche Welle que “estava a caminho” e que atuaria como franco-atirador. Em grupos de WhattsApp e Telegram muitos brasileiros lamentam não ter dinheiro para a viagem, algo em torno de 7 mil reais até a Polônia, e pedem doações. Alguns são até qualificados, como ex-soldados da força de paz no Haiti, ou ex-policiais militares.

Do lado da Rússia não foi preciso anúncio para reforçar as tropas na Ucrânia. O presidente Vladimir Putin pediu a seu ministro da Defesa, Sergei Shoigu, em reunião do Conselho de Segurança transmitida ao vivo por TV, em 11 de março, que fosse encontrar “no meio do caminho aqueles que estão querendo ajuda para chegar à frente dos combates”. Chamou-os de “voluntários”, mas, na verdade, seriam mercenários, já que pagos. O “Movimento de Libertação da Ucrânia” foi formado por veteranos da guerra na Síria, os sírios que defenderam o presidente Bashar al-Assad contra rebeldes, mais os fiéis do Estado Islâmico unidos a iranianos e soldados do Hezbollah. Talvez por isso várias cidades ucranianas ficaram muito parecidas com as devastadas Idlib, Aleppo e Douma, na Síria.

A Rússia também conta com um poderoso grupo de mercenários, Wagner, ligado a militares russos e ao oligarca Yevgeny Prigozhin, amigo de Putin procurado pelo FBI por interferir na eleição presidencial de 2016 para a Casa Branca. Nele há chechenos, sírios e líbios — uma tropa de 6 mil combatentes. Tornou-se conhecido quando soldados franceses deixaram o Mali, o sétimo maior país africano, em 2020. Em Bamako, a capital, foi recebido com cartazes “Amamos Wagner” e “Obrigado, Wagner”, e fotos do maestro e compositor Richard Wagner coladas nos muros. O nome teria sido inspirado no apelido da artilharia da era soviética: “a orquestra”.

Wagner é mais temido do que apreciado. Na República Centro-Africana, seus homens combateram uma rebelião com massacres, tortura e sequestros, segundo relatório da ONU. Em troca, obtiveram licenças para exploração de minas de ouro e diamantes. Na Líbia, eles cometeram execuções sumárias em apoio a chefes tribais que ambicionavam o governo. No Sudão, sufocaram, violentamente, as manifestações contra o ditador Omar Hassan al-Bashir.

A história dos mercenários começa na Bíblia. Em 1Crônicas 19:7 está descrito: “Alugaram trinta e dois mil carros e seus condutores, contrataram o rei de Maaca com suas tropas, o qual veio e acampou perto de Medeba, e os amonitas foram convocados de suas cidades e partiram para a batalha.”

E mais, em 2Reis 7:6: “Pois o Senhor tinha feito os arameus ouvirem o ruído de um grande exército com cavalos e carros de guerra, de modo que disseram uns aos outros: “­Ouçam, o rei de Israel contratou os reis dos hititas e dos egípcios para nos atacarem!”

O professor Sean McFate lembra os primeiros que se armaram de mercenários depois do Velho Testamento: o Rei Shulgi, de Ur (2029-1982 AC); Xenofonte, militar discípulo de Sócrates, contratou um exército de gregos que batizou de Dez Mil (401-399 AC); Cartago os usou nas Guerras Púnicas contra Roma (264-164 AC), incluindo 60 mil guerreiros de aluguel sob comando de Hannibal. Quando Alexandre o Grande invadiu a Ásia, em 334 AC, acrescentou cinco mil estrangeiros às suas tropas, e enfrentou as forças persas que contavam com 10 mil gregos. Foram mercenários alemães que salvaram Júlio César na batalha de Alésia contra os gauleses, em 52 AC.

Guerras Púnicas

Os mercenários continuaram guerreando por toda a Idade Média. Reis, famílias ricas, a Igreja, Papas — todos os tiveram para defesa da honra, sobrevivência, deus, roubo e vingança. Usou-os até mesmo o filósofo, diplomata e escritor Thomas More para proteger a sua República utópica. Curioso é que, por essa época, os mercenários eram chamados de condottieri, italiano para contractors, o atual nome deles em inglês.

As guerras mudaram no século 17, as armas mais destrutivas e superbatalhas que incluíam até 50 mil combatentes. Os mercenários ainda predominavam, lembra o professor Sean McFate. “O conceito de patriotismo não estava relacionado ao serviço militar. Isso só viria mais tarde, com o crescimento do nacionalismo, Napoleão e a guerra convencional”. Em 1648, com a paz de Vestefália, que encerrou a Guerra dos 30 Anos (1618-1648), líderes de todos os lados resolveram acabar com o mercado livre de mercenários, responsabilizados pela devastação na Europa central. Para os exércitos privados, quanto mais guerras, mais salários. A paz não era um bom negócio. O florentino Nicolau Maquiavel opinava que os condottieri transformavam os guerreiros em animais, e os cidadãos, em covardes.

Aconteceu que os mercenários sem guerra, desempregados, passaram a cercar cidades e a exigir resgate em dinheiro para libertá-las. E, quando partiam, despediam-se: “Até o ano que vem”. A cidade toscana de Siena pagou a extorsão 37 vezes, entre 1342 e 1399. A última participação conhecida de mercenários, até o final do século 20, foi em 1854, na guerra da Crimeia, onde de novo estão lutando, hoje, nos dois lados da invasão russa da Ucrânia.

As Convenções de Genebra I e II, em 1977, baniram a figura do mercenário. E determinaram que ele “não tem o direito de ser um combatente ou prisioneiro de guerra”. Mas aos poucos eles foram voltando, com a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria. O mercado se abriu com conflitos nos Bálcãs, guerras estourando no Mali, Congo, Iêmen, os carteis de drogas na América Latina, Al Qaeda e Estado Islâmico, no Oriente Médio. Os Estados Unidos passaram a contratar exércitos para suas guerras no Iraque e no Afeganistão. Foram 50 mil soldados terceirizados, em 2018, segundo o próprio Departamento de Defesa.

O professor Sean McFate ia buscar seus mercenários entre filipinos, colombianos e sul-africanos que tinham lutado em forças especiais. “São como camisetas, baratas nos países em desenvolvimento. É a globalização da força privada”. Alguns grupos sublocavam tarefas aos nativos dos locais em que trabalhavam, daí formando subgrupos que assumiam o lugar deles quando partiam para outras missões. Assim, hoje, há pequenas empresas privadas em vários países, como a Mister White e Mister Pink, no Afeganistão, herança da empresa britânica ArmorGroup.

Os exércitos privados oferecem pilotos de helicópteros, tanquistas, militares familiarizados com vários sistemas de defesa antiaérea, sabotadores, agentes treinados em extrair prisioneiros, soldados para o deserto ou para florestas — um supermercado de produtos para qualquer missão. O que não existe é mulher mercenária. McFate afirma que nunca encontrou uma sequer.

Mercenários colombianos presos depois do assassinato do presidente do Haiti

A empresa de aluguel de mercenários CTU Security, em Miami, recrutou militares da reserva das forças especiais colombianas, em maio e junho de 2021, e os mandou ao Haiti para proteger alguns dignitários locais. Aos poucos, a missão foi mudando. E em 7 de julho o grupo invadiu a residência do presidente Jovenel Moïse e o matou na cama dormindo com a mulher, Martine, que ficou ferida. Como eram “protetores”, passaram pelos soldados haitianos sem problemas. Depois do assassinato, 18 dos 26 mercenários colombianos foram presos, e outros três, mortos. Um escapou, talvez o comandante: Mario Palacios, 43, que integrou a força Delta de combate aos narcotraficantes na Colômbia. Ele conseguiu entrar na vizinha Jamaica, onde acabou preso por violar leis de imigração. Foi então que aceitou cooperar com o FBI, desvendando a operação para matar o presidente haitiano, em troca de ser deportado para Bogotá. Mas, numa escala no Panamá, o destino dele mudou: voou para a prisão em Miami.

Um dos donos da CTU Security, Arcangel Pretelt, oficial da reserva das forças especiais colombianas, afirmou que os Estados Unidos sabiam que o presidente Moïse seria morto e substituído por um antigo juiz da Corte Suprema do Haiti, Windelle Coq-Thelot. Ele foi desmentido. E desapareceu.

Em 3 de maio de 2020, um grupo de mercenários americanos desembarcou numa praia venezuelana. Missão: matar o presidente Nicolas Maduro. Horas depois, quem não estava morto, estava preso. O fracasso foi assumido por Jordan Goudreau, antigo soldado dos Boinas Verdes dos EUA e chefe da Silvercorp, na Flórida. Inevitável lembrança: a tentativa frustrada de invadir Cuba, em 1961, com o desembarque de exilados cubanos anticastristas na Baía dos Porcos, treinados e dirigidos pela CIA e com apoio das Forças Armadas dos EUA.

Um dos mais famosos mercenários de todos os tempos, “Mad Mike” Hoare morreu ao completar 100 anos, em 2019, em Durban, na África do Sul. Era um soldado britânico que serviu na Índia e em Myanmar durante a segunda Guerra Mundial. Em época de paz, trabalhava como contador, em Londres — mas, ao mesmo tempo, organizava safaris na África, que desbravou em motocicleta, quando buscava a lendária cidade perdida no deserto de Kalahari.

O espírito de aventura e o conhecimento da África o tornaram mercenário. Sua primeira missão, contratado pela CIA, foi sufocar uma rebelião no Congo, considerada uma ameaça pelos Estados Unidos. A imprensa americana o glorificou, embora existissem provas de que ele e seus homens tivessem cometido roubos, estupros, tortura e assassinatos.

“Eu gostaria de ter nascido na época de Sir Francis Drake”, ele disse ao jornal The Washington Post, lembrando o capitão inglês e corsário condecorado pela rainha Isabel I como cavaleiro, em 1581. “Sim, velejando, roubando os espanhóis, e quando trouxesse o butim para a Rainha Elizabeth, ajoelhado, ela me faria um cavaleiro. Me tornaria respeitável — mesmo sendo um ladrão.”

“Mad Mike” era racista: só contratava brancos, e mais de uma vez disse que “os africanos eram animais”. Essa impressão ficaria mais forte ao lutar contra o rebelde congolês Moise Tshombe, em 1961, e ter três de seus mercenários canibalizados. Sua tropa, apelidada de Gansos Selvagens, liquidou as forças da tribo Simba, mais numerosas, mas menos treinadas, e que acreditavam que um feiticeiro as tivesse blindado contra balas. A partir daí, os Gansos ficaram famosos como “Gigantes Brancos”. E recebiam 300 mil dólares por mês de Mobutu Sese Seko, que governou a República Democrática do Congo, antigo Zaire, por 30 anos sangrentos.

Em outro encontro com Simba, em Kisangani, em novembro de 1964, os Gigantes Brancos libertaram 1.600 missionários europeus e americanos feitos reféns.

O ator Richard Burton atuou no papel de um mercenário inspirado em “Mad Mike”, no filme que em inglês tinha o título de Gansos Selvagens, mas que, em português, ficou sendo Selvagens Cães de Guerra.

O filme o tornou mais famoso ainda, lançado em 1978, e coincidiu com sua primeira grande derrota ao tentar derrubar o governo socialista das ilhas Seychelles. Ele e 40 homens disfarçados de jogadores de rúgbi desembarcaram no aeroporto de Mahé, mas um dos fuzis AK-47 que levavam escondidos foi descoberto na alfândega. Houve um tiroteio, com um morto de cada lado, e “Mad Mike” sequestrou um avião da Air Índia na pista e voou cerca de sete mil quilômetros, até Durban, onde ele e os Gansos foram presos.

Condenado a 10 anos de prisão, Mike Hoare serviu três anos, beneficiado por uma anistia presidencial. Mudou de vida, ao sair: foi para a França, onde passou 20 anos estudando uma seita cristã conhecida por Cathars, sobre a qual escreveu um romance histórico. Voltou em 2009 para a África do Sul. Teve cinco filhos em dois casamentos, e oito netos. Quando lhe perguntaram o que o levou a ser mercenário, “Mad Mike” respondeu:

“A mística é inexplicável – a mística sobre o soldado com homens fortes. É algo mais do que apenas soldado por dinheiro. O momento da verdade vem às 3 da manhã em um buraco. Seu amigo foi morto ou ferido, e nenhum dinheiro pode compensar…  Mas há uma alegria indescritível de ser parte de uma unidade bem disciplinada…