E o vento voltou — a República Islâmica entra em sua fase decisiva

(Quarenta e sete anos depois, o regime iraniano enfrenta seu teste mais profundo — e o mundo volta a girar em torno dele.)

Deitado no tapete persa que comprei de um refugiado iraniano em Tel Aviv, em 1979, eu acompanhava pelo rádio as notícias sobre o “vento da mudança” que soprava no Oriente Médio. Seu epicentro era o Irã – o furacão provocado pela volta do aiatolá Ruhollah Khomeini a Teerã, depois de 15 anos de exílio.

Os noticiários se sucediam a cada meia hora. Em dias de maior tensão, até os ônibus paravam para ouvir. Radinho de pilha era indispensável. Todo repórter tinha um – muitos com gravador. Não havia internet. E as surpresas — quase sempre atentados— eram diárias.

O último Xá do Irã

No Egito, Anuar Sadat rompera um tabu árabe ao visitar Jerusalém, em 1977. Em Israel, Menachem Begin levava a direita ao poder pela primeira vez desde 1948. Agora, os dois concluíam o que chamavam de a “paz dos bravos”, assinada em março de 1979 no gramado da Casa Branca, sob o patrocínio do presidente Jimmy Carter.

Analistas de rádios do Líbano e do Catar advertiam: o “vento da mudança” poderia varrer as monarquias sunitas do Golfo e da Jordânia.

O Exército Imperial Iraniano, armado pelos EUA, não reagiu quando Khomeini pousou em Teerã, em 1º de fevereiro de 1979. Voltava do exílio na França, num Boeing 747 fretado, com 120 jornalistas a bordo — um escudo contra um possível ataque.

Entre três e seis milhões de iranianos o receberam — um rio humano que ocupou 33 quilômetros de ruas, do aeroporto Mehrabad ao cemitério Behesht-e Zahra. Gritavam: “Khomeini! Khomeini!” O Xá Mohammad Reza Pahlavi havia deixado o país duas semanas antes, oficialmente “de férias”. Passou pelo Egito, Marrocos, Bahamas, México e Panamá. O primeiro-ministro Shapur Bakhtiar, opositor que o Xá havia tirado da cadeia antes de partir, foi logo apontado como homem da monarquia e teve que fugir disfarçado para Paris, onde acabaria assassinado por um sicário do novo regime. O comandante das forças armadas, general Mehdi Rahimi, optou por não esmagar a revolta para evitar um massacre de civis. O exército, então, se rendeu.

Ainda hoje me lembro da resposta de Khomeini quando um repórter lhe perguntou o que sentia ao voltar ao Irã: “Hichi”. Em persa: “nada”.

Antes de sair do aeroporto, falou para 1.200 pessoas selecionadas. “Eu nomearei o governo! Com o apoio do povo, eu nomearei o governo!” Nomeou Mehdi Bazargan e recebeu o juramento de lealdade da Força Aérea. Inaugurava-se o primeiro Dahe-ye Fajr, os “Dez dias da Aurora”, de 1° a 11 de fevereiro — até hoje símbolo da transformação do Irã sob o regime islâmico.

A República Islâmica foi aprovada por 98% dos iranianos em 30 e 31 de março, por plebiscito, e proclamada em 1º de abril de 1979. Quase meio século depois, bombardeada, isolada e em escombros, esbarra numa questão sempre adiada: quanto tempo pode sobreviver um regime que nasceu para ser governado por Alá, administrado por clérigos e exportado para o mundo árabe?

A promessa revolucionária virou Estado, aparato militar, teocracia, repressão interna, impasse nuclear — e guerra aberta.

A embaixada israelense em Teerã foi entregue à Organização de Libertação da Palestina. Milhares de judeus da milenar comunidade persa fugiram levando bens pessoais, especiarias e tapetes valiosos, vendidos depois no Shuk HaCarmel, em Tel Aviv. Cerca de 20 mil chegaram a Israel — hoje são 250 mil, com seus descendentes.

Khomeini tornou-se o primeiro Líder Supremo. Criou o Conselho dos Guardiães, a Guarda Revolucionária, a justiça revolucionária, promoveu a islamização dos costumes e eliminou aliados iniciais — laicos, nacionalistas e a esquerda, inclusive os que haviam participado da queda do xá Pahlavi. A revolução virava ditadura clerical-militar.

Para os revolucionários, os Estados Unidos já eram o “Grande Satã” que derrubara o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, em 1953, após a nacionalização do petróleo então controlado pela Anglo-Persian Oil Company (hoje BP), e reinstalara o Xá Mohammad Reza Pahlavi no Trono do Pavão.

Em 1979, com o novo regime islâmico se enraizando em Teerã e no começo de seu exilio errante, doente de câncer, o xá conseguiu do presidente Jimmy Carter autorização para se tratar em Nova York. Foi o estopim: jovens militantes islâmicos radicais invadiram a embaixada dos EUA em Teerã. Para eles, os EUA estavam tramando um novo golpe. Sessenta e seis pessoas foram feitas reféns — reduzidas depois a 52, mantidas sob sequestro por 444 dias.

Os estudantes exigiam a extradição do xá, o fim da interferência americana e reparações econômicas.  Khomeini não organizou a ação, mas a usou para consolidar poder, mobilizar a população contra “inimigos externos” e radicalizar a revolução.

Da Casa Branca, Carter comandou uma ousada operação de resgate dos diplomatas sequestrados que terminou em desastre antes de começar. De madrugada, numa antiga base aérea abandonada no deserto iraniano, comandos americanos tiveram que abortar a ação em meio a uma inesperada tempestade de areia depois que oito soldados morreram no choque de um helicóptero “Sea Stallion” com um avião Hércules C-130, ainda na pista. Outros cinco helicópteros foram abandonados por falhas mecânicas, falta de combustível ou tripulação para voar em segurança.

As relações entre Irã e EUA foram rompidas e o vexame custaria a Carter a reeleição. Os reféns só seriam libertados em 20 de janeiro de 1981, na posse do presidente Ronald Reagan, após um acordo mediado pela Argélia que provocou o descongelamento de bens e capitais iranianos nos EUA.

Na madrugada de 22 de setembro de 1980, um telefonema do Brasil me acordou em Tel Aviv. O editor de internacional do Estadão perguntou: “Está ouvindo alguma coisa aí?” Fui a janela, olhei as dunas rumo ao mar. Silêncio absoluto. “Não, nada”, respondi. Ele completou: “Começou a guerra Iraque-Irã”.

A dois mil quilômetros de distância, não se ouviam explosões. Israel, inimigo de ambos, chamava o conflito de “a guerra dos escorpiões”. Fui encarregado de cobri-la. No terceiro dia, percebi o absurdo: somando os aviões que cada lado dizia ter abatido, já não havia mais aviação de guerra no mundo.

O presidente iraquiano Saddam Hussein misturou disputa territorial — Shatt al-Arab e o Khuzestão – ao temor de que a expansão xiita iraniana chegasse ao Iraque. E decidiu invadir o Irã. Esperava uma vitória rápida. A guerra durou oito anos, deixou meio milhão de mortos e custou 627 bilhões de dólares — sem mudanças territoriais relevantes.

Para Khomeini, foi uma “bênção política”. Ele próprio disse isso. Uniu o país, justificou a repressão interna e fortaleceu a Guarda Revolucionária, que evoluiu de milícia ideológica a pilar militar do regime.

Khomeini morreria pouco depois do fim da guerra, em 3 de junho de 1989, aos 89 anos. Andava mal de saúde. Em um período de dez dias, chegou a sofrer cinco ataques cardíacos. No final, uma hemorragia gastrointestinal o matou. Seu funeral foi um dos maiores da história moderna do Irã.

A Revolução perdeu seu líder histórico, mas não o poder. Expandiu-se para o Líbano, com o Hezbollah; para o Iraque, com milicias xiitas; sustentou o presidente Bashar al-Assad na Síria; armou o Hamas, em Gaza, e os Houthis, no Iêmen.

O novo Líder Supremo foi escolhido no mesmo dia do funeral: Ali Khamenei, então com 50 anos, que havia sido presidente do Irã de 1981 a 1989. Como não era uma alta autoridade religiosa, a Constituição foi ajustada para permitir sua nomeação.

Saia o fundador carismático, entrava o dirigente pragmático. Com o apoio do poderoso presidente do Parlamento, Akbar Hashemi Rafsanjani, que logo assumiria a presidência do Irã, consolidou-se a nova estrutura do regime.

A criação do programa nuclear iraniano, em 2002, com as usinas de Natanz e Arak, transformou-se em símbolo de soberania – e foco de grande pressão internacional. Natural: um país que tem em sua constituição a declarada missão de destruir o “Pequeno Satã”, Israel, seria especialmente perigoso com bombas atômicas. Em 2015, por vontade do presidente Barak Obama, o Irã assinou um acordo nuclearcom EUA, China, França, Rússia, Reino Unido e Alemanha, comprometendo-se, em troca de alívio nas sanções, a usar suas usinas atômicas apenas para produção de energia, sob fiscalização da Agência Internacional de Energia Atômica.

A chegada de Donald Trump à Casa Branca em 2017, para seu primeiro mandato presidencial, mudou tudo. Sob pressão israelense, anulou o acordo nuclear e reapertou as sanções contra o regime, já atribulado por crescente oposição interna, forte inflação e crise econômica desastrosa. Em 2022, a morte nas mãos da polícia de costumes da jovem Mahsa Amini, iraniana da minoria curda, presa por não usar o véu obrigatório, levou milhares às ruas — não para defender a revolução, mas para desafiá-la. Seu slogan: “Mulher, Vida, Liberdade”.

Era apenas o começo. Em 28 de dezembro do ano passado, os comerciantes do Grande Bazar de Teerã fecharam as portas e foram às ruas protestar contra o colapso da moeda iraniana, o rial, que bateu 1,4 milhão por dólar. A insurreição de fundo econômico logo se espalhou pelas 31 províncias do Irã, com manifestações quase diárias, tornando-se o maior desafio para a República Islâmica.

A violenta repressão causou milhares de mortes nos dias 8 e 9 de janeiro. Em 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. O Líder Supremo Ali Khamenei morreu sob o bombardeio a seu complexo residencial, no centro de Teerã.

Em 1979, vi um país inteiro se mover como um rio humano para receber um homem que dizia sentir “nada”. Hoje, não tenho mais o tapete persa, não há mais radinho de pilha nem boletins de meia em meia hora. Há telas, mapas digitais, vídeos em tempo real, redes sociais. Mas a sensação é estranhamente a mesma.

O “vento da mudança” voltou a soprar. Desta vez, não vem de Paris nem de Teerã. Sopra de dentro — de uma sociedade jovem, conectada e cada vez menos disposta a viver sob um regime que se apresenta como eterno.

Quase meio século depois, o regime que Khomeini criou ainda está de pé — mas já não move multidões, não produz entusiasmo e precisa cada vez mais da força bruta para se manter.

A revolução que prometia redenção tornou-se sistema. O sistema virou poder. E o poder, rotina, agora abalada pela guerra com os EUA e Israel.

Aqui morreu o líder supremo da República Islâmica, aiatolá Ali Khamenei.

No Irã de hoje, não é mais o entusiasmo popular que sustenta o regime — é o equilíbrio instável entre força militar, repressão, medo e sobrevivência.

Como todo regime que nasce para durar para sempre, a República Islâmica enfrenta afinal a única pergunta que realmente importa: não como chegou até aqui, mas quanto tempo ainda consegue durar.

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