Irã, EUA e Israel

Jerusalém na Linha de Fogo:
Purim em Tempos de Mísseis.

Hoje ao pôr do sol é “Purim”, quando os judeus no mundo inteiro comemoram uma vitória na antiga Pérsia, o atual Irã, e Israel está em guerra contra o regime iraniano.

“Pur” significa “sorte”. O livro bíblico de Ester narra essa história de sobrevivência dos judeus no Império Persa, evocando, para muitos israelenses, paralelos históricos com a narrativa bíblica. Desde os aiatolás Khomeini e Khamenei até sábado, o Irã — com mísseis balísticos, na busca de uma bomba atômica e por meio de milícias no Líbano, no Iraque e no Iêmen — repetia a condenação: “Morte a Israel!”

O “aiatolá” bíblico persa no século V a.C., o mais alto oficial da corte do rei Xerxes I, chamado Assuero, era Hamã. Ele tinha um plano de aniquilar todos os judeus; só lhe faltava uma data. Então, ele lançou a sorte – “Purim” (de Pur, palavra de origem acadiana/assíria.) O dia da execução cairia em 13 de Adar, que corresponde ao pôr do sol desta segunda-feira, 2 de março, pelo calendário lunar hebraico.

É então que surge Ester, nome adotado para ocultar sua verdadeira identidade judia, Hadassa, descendente do Rei Saul, o primeiro de Israel, sucedido por David. Segundo o Dicionário Judaico de lendas e tradições, do rabino Alan Unterman, da Universidade de Manchester, ela era jovem e bela aos 40 anos, criada por seu primo Mordecai, que a adotou como filha (tradições rabínicas posteriores sugerem que também teriam sido casados). Quando a rainha persa Vasti foi deposta, o rei Assuero escolheu Ester para ser a nova rainha, sem saber que ela já era casada.

A Rainha Ester arriscou desvelar sua verdadeira identidade judaica ao interceder junto ao rei Xerxes pelos judeus persas condenados ao extermínio. Hamã acabou sendo executado; e os judeus, autorizados a se defender, transformando a ameaça em vitória.

(Está circulando nas redes sociais esta montagem de um doce de três pontas. comum nas comemorações de Purim, sobre a cabeça de aiatolá Khamenei. O doce, Hamantaschem, seria as orelhas de Hamã.)

A comparação entre o bíblico e o atual termina aí. A República Islâmica não é o Império Persa, e os conflitos contemporâneos se movem por cálculos estratégicos, não por decretos decididos por sorte. Mas a coincidência histórica é inevitável: o nome Pérsia ocupa, novamente, o centro de uma narrativa de ameaça existencial para Israel. No livro bíblico de Ester, o nome de Deus não aparece nenhuma vez. A vitória, ou a sobrevivência do povo judeu, não surge por milagre, mas por decisões humanas.

O governo israelense batizou a guerra contra o Irã de “Roaring Lion” (“Leão Rugindo”), enquanto os Estados Unidos a denominaram “Epic Fury” (“Fúria Épica”). O primeiro golpe desse “leão furioso” foi desferido contra a cúpula religiosa no poder, os militares e políticos importantes, simultaneamente aos bombardeios pesados a arsenais de mísseis balísticos e lançadores de drones, por todo o território iraniano, envolvendo cerca de 450 caças e grupos navais de dois porta-aviões.

Entre os cerca de 40 líderes mortos no sábado e domingo, como confirmado por autoridades americanas, está o líder supremo da República Islâmica, aiatolá Ali Khamenei. O Irã decretou luto nacional de 40 dias e um sucessor provisório já foi escolhido. Entre os americanos, três morreram. E um míssil matou nove israelenses, ferindo outros 40, com um impacto direto na cidade de Beit Shemesh, a “Casa do Sol”, um distrito de Jerusalém.

Por causa do primeiro golpe na chamada Guerra dos 12 Dias, em junho do ano passado, os mísseis disparados contra Israel e países do Golfo não vieram mais às centenas, mas em dúzias. Um deles, ontem, caiu a um quilômetro apenas da esplanada das mesquitas Al Aqsa e Domo da Rocha, o “Nobre Santuário”, de onde Maomé ascendeu aos céus em seu cavalo alado.

Para os judeus, esse terceiro lugar mais sagrado do Islã, depois de Meca e Medina, é o seu primeiro, o Monte Moriá, onde Abraão se preparou para sacrificar seu filho Isaque. Aqui, o Rei Salomão construiu o Primeiro Templo no século X a.C., destruído pelos babilônios em 586 a.C., reconstruído por Zorobabel e ampliado por Herodes em 20 a.C. O Muro das Lamentações é o que restou dos dois templos.

No pôr-do-sol desta segunda-feira, Israel e a diáspora comemoram a vitória ancestral contra a Pérsia, em guerra contra o Irã. Mas se o míssil iraniano de ontem atingisse o monte sagrado para judeus e muçulmanos, o mundo deixaria de assistir a mais um capítulo do conflito do Oriente Médio. Assistiria à explosão simbólica do lugar onde se cruzam Abraão, Maomé, Jesus e os profetas de Israel — e onde a política sempre correu o risco de se tornar uma guerra religiosa.

Em Jerusalém, a geografia nunca é apenas geografia. É história acumulada. Quando a história e mísseis se aproximam demais, o risco deixa de ser apenas militar. Não há mais profetas em Israel. Mas uma lenda que ouvi, quando morei lá durante oito anos, dizia: “Aqui tudo começou; aqui tudo terminará”.