
À véspera do fim do ano persa de 1404, em 21 de março, os curdos estão mais divididos do que talvez jamais tenham estado em milênios. Serão a infantaria que Estados Unidos e Israel imaginam para atiçar novamente a oposição iraniana nas ruas? Ou servirão de bucha de canhão para atrair a Guarda Revolucionária a uma armadilha mortal de bombardeios aéreos ao norte do Iraque?
O suspense diante dessas respostas já levou o Irã a bombardear o Curdistão iraquiano nas últimas horas. Mas os curdos não desceram das suas montanhas, como chegou a noticiar uma rede de TV nos Estados Unidos. Tampouco estão unidos sobre as propostas que receberam em telefonemas do próprio presidente Donald Trump nesta semana – e sobre o prêmio prometido por Israel caso as aceitem: apoio à autonomia para os curdos iranianos.
Os curdos são cerca de 30 milhões espalhados por partes da Turquia, Síria, Iraque e Irã — onde vivem de seis a nove milhões entre uma população de 90 milhões. Estão fragmentados numa sopa de letrinhas de partidos: PUK (Patriotic Union of Kurdistan), KDP (Kurdistan Democratic Party), PAK (Kurdistan Freedom Party), PJAK (Kurdistan Free Life Party) e PKK (Kurdish Workers Party). São considerados bons soldados, “peshmergas” — “os que enfrentam a morte”. Lutaram contra o Estado Islâmico no norte do Iraque ao lado dos EUA, que depois os abandonaram e, mais recentemente, os traíram na Síria.
Após a Primeira Guerra Mundial, o Tratado de Sèvres (1920) chegou a prever um Estado curdo. Três anos depois, o Tratado de Lausanne (1923) apagou essa promessa do mapa. Desde então, os curdos dizem uma frase amarga:
“Não temos amigos além das montanhas.”
No Oriente Médio vigora um provérbio que explica a rapidez com que alianças nascem e morrem: “O inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Diante do Irã, americanos e curdos voltam a se aproximar. Desde os protestos iranianos de janeiro — reprimidos com violência — a CIA e o Mossad israelense estariam armando os “peshmergas” com armas leves.
Em telefonemas a líderes curdos, Trump prometeu “cobertura aérea extensiva” caso combatentes curdos iranianos cruzem da região iraquiana para abrir um front dentro do Irã. Centenas já teriam atravessado a fronteira. Aos curdos iraquianos, Washington pediu que não obstruam o caminho dos combatentes e lhes ofereçam apoio logístico.
“Trump foi claro em sua ligação”, contou o líder da União Patriótica do Curdistão (PUK), Bafel Talabani. “Ele nos disse que os curdos devem escolher um lado nesta batalha — ou com os Estados Unidos e Israel, ou com o Irã.”
Outro que recebeu o telefonema da Casa Branca foi Masoud Barzani, do Kurdistan Democratic Party (KDP): “Não se trata de quem tem mais milícias armadas para invadir o Irã, mas de quem tem mais apoio interno.”
A aviação israelense bombardeou possíveis obstáculos que os combatentes curdos encontrariam pelo caminho. Fontes do governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu prometeram às milícias curdas não apenas apoio militar, mas também apoio político para a criação de uma região autônoma curda no Irã após a eventual queda do regime teocrático de 47 anos.
O dilema curdo foi resumido por uma fonte do PUK ao jornal Washington Post: “Estamos numa posição muito delicada. Se esta ofensiva terrestre falhar, não sabemos qual será a reação do Irã contra a região do Curdistão iraquiano. Ao mesmo tempo, não podemos simplesmente rejeitar o pedido de Trump — especialmente quando ele liga pessoalmente e pede por isso.”
Pouco antes do início da guerra no Irã, cinco grupos dissidentes de curdos iranianos anunciaram a formação da Coligação de Forças Políticas do Curdistão Iraniano, aceitando a proposta americana. O governo iraquiano respondeu que, “em nenhuma circunstância, permitirá qualquer ameaça ao Irã a partir de seu território”.
Então o Irã atacou o Curdistão no Iraque, numa tentativa de prevenir um ataque curdo iraniano a seu território. Um dos alvos de três mísseis foi o comando das forças curdas.
“Os grupos separatistas não devem pensar que surgiu uma brisa e tentar agir”, disse Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã. “Não os toleraremos de forma alguma.”

A celebração milenar do Noruz — o “Dia Novo”, que marca a chegada da primavera no mundo persa — sempre foi associada à renovação. Mas neste ano o calendário pode abrir não para um novo ciclo de esperança, e sim para mais um capítulo de guerras por procuração no Oriente Médio.
Feliz ano-novo persa de 1405?
Nota:
As fotos são da Wikipedia. O mapa, da Por Fars Media Corporation, CC BY 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=67668486

