GUERRA EN GAZA

IMPASSE:
HAMAS QUER LIBERTAR 5 REFÉNS.
ISRAEL QUER 11.

O Hamas aceita libertar cinco reféns vivos em troca de uma trégua de 50 dias. Israel quer que sejam libertados 11. O Egito está tentando um meio termo entre as duas propostas. Mas a guerra continua, porque o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, acredita que, sob fogo, as negociações ficam mais eficazes.
É o que declarou Netanyahu no início de uma reunião dominical de seu gabinete: “A pressão militar está funcionando”. E ele acrescentou que vê “rachaduras” na posição do Hamas.
Assim será o fim da guerra que entra no 7º mês com mais de 50 mil mortos, na visão de Netanyahu: “O Hamas vai depor suas armas. Seus líderes terão permissão para deixar Gaza. Nós cuidaremos da segurança geral e permitiremos a implementação do plano Trump” — o plano de imigração voluntária”, que antes foi concebido como uma Riviera no Oriente Médio, com a deportação da população palestina para países árabes.
Um dos negociadores do Hamas, Khalil al-Hayya, disse, neste sábado: “Não queremos nada de novo. Queremos respeitar o que foi assinado, o que os fiadores garantiram e que a comunidade internacional aprovou”. Ele se referiu ao que constava no primeiro acordo de cessar-fogo, prevendo que num segundo tempo Israel se retiraria de Gaza e todos os reféns, 24 vivos e 35 mortos, seriam devolvidos. Israel cumpriu a primeira parte mas não a segunda, porque seu objetivo sempre foi de só encerrar a guerra com o extermínio ou a rendição do Hamas.
Khalil al-Hayya, no entanto, sabe que não existe mais a opção do acordo de três fases assinado em janeiro. Por isso, ele disse que a nova proposta egípcia foi aceita pelo Hamas. No primeiro e último encontro inédito com um emissário da Casa Branca, em Doha, no Catar, a liderança palestina havia concordado em libertar o soldado israelense-americano refém, Edan Alexander. Mas o negociador dos EUA, Steve Witkoff, rejeitou o acordo, porque sua simples existência enfureceu Netanyahu, que se nega a dialogar com uma organização que considera terrorista.
Nem o Hamas e nem Israel divulgaram as propostas de cessar-fogo que receberam dos mediadores egípcios e catarianos. A imprensa no Oriente Médio cita a oferta de libertação de cinco reféns e a contraproposta de libertar 11, como o impasse atual. Netanyahu aproveitou a reunião de seu gabinete para se vangloriar de estar “comprometido em trazer de volta os reféns”, ao contrário do que dizem as famílias dos reféns e a oposição. Foi mais além, dizendo que o que funciona é a combinação de pressão militar e diplomática, “e não todas as reivindicações e slogans vazios que ouço nos estúdios (de TV) dos especialistas”.
Sobre o Líbano, advertiu: “Ele tem que garantir que nenhum ataque contra Israel saía de seu território”. Ao presidente e amigo Donald Trump ele agradeceu os ataques contra os Houthis, no Iêmen, que continuam disparando mísseis balísticos contra Israel, mandando milhares de israelenses para abrigos antiaéreos.
O Hamas começou neste fim de semana a se vingar de palestinos que marcharam, na semana passada, pela primeira vez, pedindo paz, em Gaza. As notícias, publicadas em jornais deste domingo, dão conta de que seis manifestantes foram executados, mas só identificam um deles, Odai al-Rubai, 22, que convocou alguns dos protestos.

Guerra em Gaza

Gaza vista do espaço (Foto Nasa)

Israel e Hamas discutem novo cessar-fogo

As negociações para um novo cessar-fogo em Gaza, dadas como mortas, estão emitindo alguns sinais de vida no Egito e no Catar. Israelenses e palestinos reagiram, positivamente, a um primeiro esforço diplomático de ressuscitação.

O Egito diagnosticou “indicações” esperançosas por parte de Israel, que rompeu o cessar-fogo e não o quis estender por mais 42 dias, como previa o acordo original de janeiro.

No Catar, uma fonte palestina declarou à Agência France Presse: “Uma reunião começou esta noite (quinta-feira) entre mediadores egípcios e uma delegação do Hamas para solidificar um cessar-fogo”.

Uma proposta à mesa incluiria a libertação de cinco reféns israelenses por semana, trocados por prisioneiros palestinos. Há 59 reféns cativos do Hamas, dos quais 24 estariam vivos. Aí seriam 12 semanas de cessar-fogo.

Antes, porém, um soldado refém israelense, com cidadania americana, Edan Alexander, deverá ser libertado para que o presidente Donald Trump proclame, desde Washington, a retomada das negociações. Um enviado da Casa Branca já tinha obtido a sua libertação, em negociações diretas e inéditas com o Hamas, em Doha, invalidadas porque os EUA não podem manter contatos diretos com uma organização listada como “terrorista” pelo seu Departamento de Estado.

A sobrevida do novo cessar-fogo, se obtido, não deve durar se Israel não flexibilizar sua posição de que a guerra só acabará com a derrota total do Hamas. Por outro lado, o Hamas exige a retirada israelense de toda a Faixa de Gaza. Um meio termo poderá ser o exílio da liderança palestina em algum país árabe, como aconteceu com o líder da OLP, Yasser Arafat, no Líbano, em 1983, quando ele partiu para a Tunísia num navio de nome emblemático para a Palestina: era o Atlântida, nome da ilha perdida, descrita por Platão no século IV a.C..

Ataque em hospital causou incêndio em Gaza REUTERS/Hussam Al-Masri

O que retirou o cessar-fogo moribundo do leito de morte? A pressão sobre o Hamas cresceu, sob fogo pesado de Israel. Tudo indica que, ao se retirar de Gaza, menos do Corredor Filadélfia, os soldados israelenses plantaram espionagem digital em vários pontos estratégicos. Explica-se, assim, como vários chefes palestinos foram assassinados em poucos dias. A frota de caminhonetes brancas, vistas na invasão de 7 de outubro e nas cerimônias de libertação de reféns, foi totalmente destruída pela aviação e por drones.

Uma das principais razões que devolve o Hamas à mesa de negociações é o protesto dos palestinos de Gaza, cansados de guerra, as casas destruídas, usados como escudos de proteção de combatentes escondidos em túneis. Quilômetros de túneis no subsolo de Gaza, e nenhum abrigo antiaéreo sobre a areia do deserto. O Hamas disse que os protestos inéditos, iniciados há três dias, eram contra guerra. Mas a multidão gritou: “Fora, Hamas; Fora, Hamas”, além de bordões contra Israel.

E o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu? O que o leva a aceitar um novo cessar-fogo? As famílias dos reféns, com milhares de israelenses as apoiando, não parou de se manifestar em Israel, na ONU, na Casa Branca, desde 2023. A sua casa oficial, na rua Gaza, em Jerusalém, vive sitiada por protestos. Ao romper o cessar-fogo, o partido da direita ultranacionalista, Poder Judeu, voltou à coligação do governo, reforçando-o com uma robusta maioria de votos para aprovar o orçamento deste ano, que, se rejeitado, o derrubaria.

Netanyahu tem problemas pela frente, como o Catargate, os milhões de dólares do Catar que transitaram em malas pelo seu gabinete, para o Hamas e para, ao menos, um porta-voz do governo, próximo do primeiro-ministro, que trabalhou a imagem de país amigo de organizações terroristas, em que trabalhadores escravos estavam morrendo, as mulheres sofriam opressão e repressão, para o país que sediou a Copa do Mundo de 2022, agora um mediador da paz e com relações diplomáticas com o mundo todo.

Netanyahu também é réu em três processos de corrupção e está afastando a Comissão de Inquérito independente que vai investigar as falhas que levaram à invasão do Hamas, em outubro de 2023, o quanto pode, porque, certamente, ele será um dos responsabilizados, como o foi a primeira-ministra Golda Meir depois da Guerra do Yom Kippur, em 1973. Netanyahu agora se dedica às demissões do chefe da espionagem interna, o Shin Bet, e a procuradora-geral, que podem lhe trazer complicações. Esta semana, ele passou pelo Parlamento um projeto que dá ao executivo o direito de escolher os futuros juízes. Antes, ele precisava da guerra para se manter no poder; agora, ele tem que libertar os reféns, para acalmar as manifestações em Israel, onde 60% dos eleitores não votariam nele numa próxima eleição.

Guerra em Gaza

Êxodo e protesto contra o Hamas. Em Gaza.

Foto do jornal Yedioth Aharonot
(Foto publicada pelo jornal Yedioth Aharonot)

Mais de 35 mil palestinos já foram embora de Gaza para um outro país, por vontade própria, desde o início da guerra em 2023, e 200 outros, doentes, devem partir para os Emirados Árabes Unidos nesta quinta-feira do aeroporto Ramon, a 18 quilômetros ao Norte de Eilat. Segundo Israel, há milhares de gazenses dispostos a partir nas próximas semanas.
Centenas de gazenses sobreviventes da guerra, que matou quase 51 mil mulheres, crianças, idosos, jovens civis e 20 mil combatentes, iniciaram um movimento inédito na terça-feira, repetido nesta quarta-feira ao meio-dia: marcharam pelas ruínas de Beit Lahia e Beit Hanoun, no norte de Gaza, protestando contra o Hamas. Nos cartazes, bordões como “O sangue de nossas crianças não é barato”, ou “Pare a guerra imediatamente”.
O movimento de palestinos contra o Hamas, que inclui protestos contra Israel, foi batizado de “Intifada do Norte” – e intifada, em árabe, pode ser traduzido por resistência, embora usado também como “agitar” ou “sacudir”. Contra Israel já houve duas intifadas, ou rebeliões. O Hamas, que sempre reprimiu protestos, não impediu as duas manifestações até agora.
O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, está insuflando a Intifada do Norte. Ele disse aos gazenses, ontem, que a única maneira de pôr fim à guerra é a remoção do Hamas e a libertação dos reféns ainda em Gaza, que seriam 59, dos quais 24 estariam mortos. “Aprendam com os moradores de Beit Lahiya”, ele sugeriu, ameaçando novas operações das forças israelenses que vão requerer a evacuação de mais território. “Os planos estão prontos e aprovados”, ameaçou. No final, acusou a liderança “corrupta” e “assassina” de viver em segurança, com suas famílias, dentro de túneis ou hospedados em hotéis de luxo.
Os manifestantes gritavam ontem “Fora, Hamas”, diante do Hospital da Indonésia, e um e outro, por vezes, perguntava para cinegrafistas, como se fossem da rede catariana Al Jazeera, por que não cobriam os protestos, acusando-0s de fidelidade ao Hamas. Os manifestantes prometem estender as manifestações para os bairros com forte presença do Hamas, como a praça Saraya, o campo de refugiados de Jabaliya e a praça Bani Suheila, em Khan Yunis.


A liderança do Hamas acusou Israel de instigar os protestos – e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu respondeu, em Jerusalém: “Os protestos são a prova de que nossa política está dando resultados”. O êxodo palestino, pretendido em larga escala pelo presidente Donald Trump, está acontecendo a conta-gotas, espontaneamente. Mesmo assim, há notícias, não confirmadas, de que enviados americanos e israelenses andam pelo Sudão e Somália em busca de espaço para abrigar o maior número possível de gazenses.
O palestino que quiser partir, e não estiver doente, nem ter dupla nacionalidade, deve fazer o pedido à polícia israelense. Há uma fila de milhares em exame. A pesquisa de antecedentes é rigorosa para impedir a fuga de combatentes do Hamas. As portas de saída são a Ponte Allemby e o posto de fronteira com a Jordânia, Kerem Shalom, ou o Aeroporto Ramon, perto de Eilat.

Espião de Israel chocado com amadorismo dos EUA

(Foto: Big Media/Gazeta do Povo)

Um antigo espião sênior do Mossad, o serviço secreto israelense, declarou ao jornal Haaretz, nesta quarta-feira, que “não se pode confiar no serviço de inteligência dos EUA durante este segundo mandato do presidente Donald Trump”.
Ele acrescentou que o vazamento dos planos de ataque aos Houthis serve de “advertência” para a comunidade de inteligência de Israel e de países aliados. E o qualificou como “um dos incidentes mais amadores que já encontrou” em seus anos de espionagem.

O jornalista Jeffrey Goldberg, editor da revista Atlantic, foi incluído como “JF” na lista do serviço de mensagens Signal, que incluía o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, o secretário de Defesa Pete Hegseth, o diretor da CIA John Ratcliffe e o diretor da Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard.
O comentarista Yossi Melman, do Haaretz, escreveu que Israel poderia também ser afetado pela quebra de sigilo sobre o bombardeio americano no Iêmen, pois seu exército e sua inteligência estavam se preparando para um ataque retaliatório aos Houthis, logo depois o dos Estados Unidos.
Os espiões israelenses e oficiais das forças armadas são proibidos de ter contas pessoais em mídias sociais. Toda comunicação entre eles usa redes fechadas e altamente seguras. Já os EUA têm 18 agências de inteligência, e cada uma com seus próprios protocolos. O Mossad trabalha, intimamente, com a CIA, compartilhando dados secretos, operacionais e análises sobre inimigos comuns, como o Irã, Hezbollah, Síria e Estado Islâmico. Se algum documento vazar, serão expostas as fontes originais e todos os operadores envolvidos.


O jornal lembra que Trump, durante seu primeiro mandato, elogiou a capacidade da inteligência norte-americana em penetrar uma célula do Estado Islâmico na Síria, a um grupo russo que o visitou. Revelou até detalhes operacionais. O jornalista Yossi Melman suspeita que as informações originais teriam a marca do Mossad. O espião que falou ao Haaretz acrescentou: “Essa situação é insana. Não dá para confiar nos EUA. Mas, ao mesmo tempo, somos o rabo, e não podemos abanar o cachorro. Nossa dependência é absoluta”.

The End: Libertado cineasta palestino preso por Israel.

Ballal medicado. Foto do co-diretor israelense.

Novas cenas de “No Other Land” (Sem Chão), o documentário que ganhou o Oscar deste ano, protagonizadas por um de seus quatro diretores, o cineasta palestino Hamdan Ballal, preso ontem depois de espancado por colonos judeus na Cisjordânia ocupada, e libertado na manhã desta terça-feira pelo exército israelense.
Vítima de pedradas, a cabeça sangrando, ele foi acusado de ser o apedrejador que iniciou o tumulto na aldeia em que mora, Susya, em Hebron. As versões do que aconteceu se chocam, dependendo de quem as narra, se colonos ou palestinos. Ele próprio, Ballal, 37, contou que protegia sua casa, durante um ataque de colonos, quando caiu no chão golpeado na cabeça, e dois soldados lhe apontavam seus fuzis.
“Enquanto no chão, um homem continuou batendo em todo o meu corpo” – ele disse ao New York Times, que o entrevistou por telefone.
O estopim também tem duas versões. Um colono surgiu em Susya quando os palestinos encerravam o jejum diário do sagrado mês do Ramadã. Pediram-lhe que se retirasse. E aí surgiram cerca de 20 outros colonos, atirando pedras e quebrando janelas, furando pneus dos carros. Segundo a outra versão, colonos surgiram com ovelhas no pasto que não lhes pertencia, uma provocação, e foram repelidos.
Enquanto detido, os olhos vendados, Ballal conta que soldados punham objetos em sua cabeça, e diziam: “Este é o cineasta que ganhou o Oscar”.
As acusações de Ballal não foram comentadas pelo porta-voz militar em Jerusalém. Os soldados que o prenderam o acusaram de atirar pedras, destruir propriedade e ameaçar a segurança regional. As mesmas suspeitas recaíram contra outros três palestinos detidos com Ballal. Só um israelense, menor de idade, foi detido, e depois liberado. Os outros participantes fugiram com a chegada de um batalhão formado… por colonos.
Ativistas de direitos humanos, muitos norte-americanos, denunciam que o batalhão de colonos raramente reprime, ou prende, os atacantes israelenses. O New York Times desta terça-feira lembra que o presidente Trump retirou as sanções impostas pelo ex-presidente Biden contra colonos violentos.
Outro diretor de No Other Land, Basel Adra, estava em Susya. Ele conta que soldados israelenses e policiais nada fizeram para impedir o ataque dos colonos mascarados, mas procuraram dispersar os palestinos. O documentário premiado com o Oscar conta as mesmas cenas do confronto de segunda-feira, porém antigas. São uma sequela de Sem Chão – II.

Os quatro diretores de “No Other Land” na noite do Oscar

SEM CHÃO

Um dos diretores palestino do filme “No Other Land” (Sem Chão), vencedor do Oscar de Melhor Documentário de Longa Metragem deste ano, Hamdan Ballal, foi “linchado” por cerca de 20 colonos israelenses mascarados em Susya, perto de Hebron, na Cisjordânia Ocupada, às seis da tarde local (13h no Brasil) de segunda-feira.
A ambulância que levava Ballal para um hospital foi parada por soldados que o retiraram e o prenderam. Palestinos que testemunharam o tumulto disseram que o pelotão enviado à Susya era formado, principalmente, por jovens judeus de colônias da região de Hebron. Carregavam pedras e facas.
O ataque começou quando um colono surgiu à porta de uma escola em Susya. Quando os moradores pediram que ele se retirasse, surgiram uns 20 outros colonos atirando pedras, furando tanques de água, roubando câmeras de segurança e quebrando janelas de carros. Eles fugiram à chegada dos soldados. Era a hora em que os palestinos quebravam o jejum do mês sagrado do Ramadã.
O co-diretor israelense de No Other Land, Yuval Abraham, postou, na plataforma X, que Ballal, 37 anos, foi “linchado” e ferido na cabeça e no estômago. Ele não sabia dizer para onde o levaram. Tarde da noite, um porta-voz militar informou que ele estava detido para questionamento, com três outros palestinos. A advogada que os representa, Leah Zemel, disse que, antes, o trio recebeu tratamento médico, e, depois, seria levado para um centro militar. No confronto de pedradas, um israelense também foi ferido
O documentário vencedor do Oscar foi filmado durante cinco anos, entre 2019 e 2023, em Masafer Yatta, na Cisjordânia ocupada. O seu enredo inclui muitas situações de ataques de colonos a palestinos, e demolições de casas por tratores israelenses, sob a alegação de que foram levantadas em “Área C”, proibida tanto para construções palestinas ou judaicas, segundo os Acordos de Oslo. O documentário também retrata a relação de amizade entre um palestino e israelense.

O co-diretor Hamdan Ballal

Na noite da entrega do Oscar, antes de anunciado o prêmio para o documentário dos diretores Ballal, Yuval Abraham, Basel Adra e Rachel Szor, vários colonos vandalizaram a cidade do filme, Masafer Yatta. Desde a invasão do Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou 1.200 pessoas e provocou uma guerra que se expandiu em múltiplos fronts, Israel aumentou a pressão na Cisjordânia, ocupada durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e prendeu 40 mil palestinos.

AS DUAS GAZA DE ISRAEL

(Na Faixa de Gaza, os mortos já passam de 50 mil)
(Na rua Gaza, residência de Benjamin Netanyahu, em Jerusalém, aumenta o número de manifestantes que exigem a sua saída.)

Israel está reocupando as ruínas de bairros e cidades de onde havia se retirado em Gaza, durante a frágil trégua de dois meses rompida na última terça-feira. A nova ofensiva matou 673 palestinos, um terço dos quais crianças, elevando para 50.021 o número de mortos em 17 meses de guerra.
Com a ajuda humanitária bloqueada, cortada a energia para a dessalinização da água do mar, e novas ordens de deslocamento aos palestinos que armaram tendas no lugar de suas casas destruídas, Gaza voltou a ser o “inferno” que o presidente Donald Trump propôs transformar em Riviera do Oriente Médio.
Da tarde de sábado até o anoitecer do domingo, mais 41 pessoas foram mortas, entre elas um popular líder do Hamas, Salah al-Bardawill, que rezava com sua esposa em al-Mawasi, em Khan Yunis, neste mês sagrado do Ramadã. Outros altos funcionários civis do Hamas também foram assassinados, numa série de alvos seletivos, entre eles o primeiro-ministro interino Essam Al-Da’alis. A lista de mortos do Ministério de Saúde de Gaza não distingue civis de militares. Israel calcula ter matado cerca de 20 mil combatentes.
O Crescente Vermelho da Palestina comunicou ter perdido contato com uma de suas equipes de paramédicos em Rafah. A Defesa Civil de Gaza partiu para tentar resgatá-la, mas seus socorristas também ficaram retidos.
O Comissário-Geral das Nações Unidas, Phillippe Lazzarini, postou no X a advertência: “Cada dia sem comida aproxima Gaza de uma crise aguda de fome”.
Israel justifica o fim da trégua como forma de pressionar o Hamas a devolver 59 reféns israelenses, dos quais 24 estariam vivos. Mas não há negociações para novo cessar-fogo. O enviado da Casa Branca para o Oriente Médio, Steve Witkoff, disse à Fox News, neste domingo, que foi “enganado” pelo Hamas no início deste mês. Ele achou que sua proposta de estender a trégua até 19 de abril, em troca da libertação de cinco reféns vivos por centenas de prisioneiros palestinos, tivesse sido aceita. Mas não: o Hamas colocou à mesa a entrega de um refém americano-israelense vivo, e mais quatro mortos, numa negociação inédita, direta, entre um funcionário do governo americano e líderes do Hamas, em Doha, no Catar. Israel exigiu 11 reféns libertados em vez de cinco.
“Infelizmente, a guerra se tornou a alternativa”, lamentou Witkoff.
Há outra Gaza, em Israel. É a rua Azza (Gaza, força ou coragem, em hebraico, alusão ao mitológico Sansão, que foi cidadão de Gaza). Na rua Azza, no bairro Rehavia, em Jerusalém, fica a residência oficial do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. E para lá foram muitos dos manifestantes que protestam contra o reinício da guerra em Gaza, pedem prioridade para a libertação dos reféns e estão querendo a prisão de Netanyahu por ter tentado demitir o chefe da espionagem interna israelense, Ronen Bar, na sexta-feira, e, neste domingo, promoveu um voto de desconfiança à procuradora-geral Baharav-Miara, primeiro passo para demiti-la também.
“Um suspeito não demite um investigador” — a palavra de ordem surgiu em cartazes nos protestos de domingo em Jerusalém e Tel-Aviv. Em carta aos ministros que a estão fritando, Baharav-Miara disse que o governo pretende estar “acima da lei”. O primeiro-ministro Netanyahu, réu em três processos de corrupção, pivô de um escândalo de milhares de dólares do Catar enviados aos palestinos e desviados para o Hamas, o Catargate, e acusado por críticos de ter reiniciado a guerra para se manter no poder, enfrenta ameaças de greve geral, a Justiça e manifestações cada vez maiores.

Israel está reocupando as ruínas de bairros e cidades de onde havia se retirado em Gaza, durante a frágil trégua de dois meses rompida na última terça-feira. A nova ofensiva matou 673 palestinos, um terço dos quais crianças, elevando para 50.021 o número de mortos em 17 meses de guerra.
Com a ajuda humanitária bloqueada, cortada a energia para a dessalinização da água do mar, e novas ordens de deslocamento aos palestinos que armaram tendas no lugar de suas casas destruídas, Gaza voltou a ser o “inferno” que o presidente Donald Trump propôs transformar em Riviera do Oriente Médio.
Da tarde de sábado até o anoitecer do domingo, mais 41 pessoas foram mortas, entre elas um popular líder do Hamas, Salah al-Bardawill, que rezava com sua esposa em al-Mawasi, em Khan Yunis, neste mês sagrado do Ramadã. Outros altos funcionários civis do Hamas também foram assassinados, numa série de alvos seletivos, entre eles o primeiro-ministro interino Essam Al-Da’alis. A lista de mortos do Ministério de Saúde de Gaza não distingue civis de militares. Israel calcula ter matado cerca de 20 mil combatentes.
O Crescente Vermelho da Palestina comunicou ter perdido contato com uma de suas equipes de paramédicos em Rafah. A Defesa Civil de Gaza partiu para tentar resgatá-la, mas seus socorristas também ficaram retidos.
O Comissário-Geral das Nações Unidas, Phillippe Lazzarini, postou no X a advertência: “Cada dia sem comida aproxima Gaza de uma crise aguda de fome”.
Israel justifica o fim da trégua como forma de pressionar o Hamas a devolver 59 reféns israelenses, dos quais 24 estariam vivos. Mas não há negociações para novo cessar-fogo. O enviado da Casa Branca para o Oriente Médio, Steve Witkoff, disse à Fox News, neste domingo, que foi “enganado” pelo Hamas no início deste mês. Ele achou que sua proposta de estender a trégua até 19 de abril, em troca da libertação de cinco reféns vivos por centenas de prisioneiros palestinos, tivesse sido aceita. Mas não: o Hamas colocou à mesa a entrega de um refém americano-israelense vivo, e mais quatro mortos, numa negociação inédita, direta, entre um funcionário do governo americano e líderes do Hamas, em Doha, no Catar. Israel exigiu 11 reféns libertados em vez de cinco.
“Infelizmente, a guerra se tornou a alternativa”, lamentou Witkoff.
Há outra Gaza, em Israel. É a rua Azza (Gaza, força ou coragem, em hebraico, alusão ao mitológico Sansão, que foi cidadão de Gaza). Na rua Azza, no bairro Rehavia, em Jerusalém, fica a residência oficial do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. E para lá foram muitos dos manifestantes que protestam contra o reinício da guerra em Gaza, pedem prioridade para a libertação dos reféns e estão querendo a prisão de Netanyahu por ter tentado demitir o chefe da espionagem interna israelense, Ronen Bar, na sexta-feira, e, neste domingo, promoveu um voto de desconfiança à procuradora-geral Baharav-Miara, primeiro passo para demiti-la também.
“Um suspeito não demite um investigador” — a palavra de ordem surgiu em cartazes nos protestos de domingo em Jerusalém e Tel-Aviv. Em carta aos ministros que a estão fritando, Baharav-Miara disse que o governo pretende estar “acima da lei”. O primeiro-ministro Netanyahu, réu em três processos de corrupção, pivô de um escândalo de milhares de dólares do Catar enviados aos palestinos e desviados para o Hamas, o Catargate, e acusado por críticos de ter reiniciado a guerra para se manter no poder, enfrenta ameaças de greve geral, a Justiça e manifestações cada vez maiores.

Israel à beira da guerra civil

A iminente guerra civil em Israel, anunciada pelo jornal francês Libération deste sábado, ganhou uma trégua até 10 de abril, decretada pela Suprema Corte de Justiça, que congelou o seu último estopim: a demissão do chefe do Shin Bet, a espionagem interna israelense, Ronen Bar, pelo governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

A guerra externa de Israel, porém, cresceu neste sábado, depois de uma primeira chuva de foguetes do Líbano desde dezembro. Foram seis foguetes — três interceptados e três que não cruzaram a fronteira sul-libanesa. Houve também um míssil balístico disparado pelos Houtis, no Iêmen, que se revelou um fiasco: caiu na Arábia Saudita, sem ligar as sirenes de alarme israelenses.

Os seis foguetes libaneses são um mistério: não têm dono até agora, anoitecendo no Oriente Médio. O Hezbollah, o principal suspeito, disse que não foi ele. “Reiteramos nosso compromisso com o cessar-fogo e apoiamos o Líbano na reação a essa perigosa escalada sionista”. As forças israelenses responderam com fogo de artilharia e a aviação, nas colinas Hamames e na cidade de Khiam, em Nabatieh. Foram cerca de 200 ataques, incluindo os de sexta-feira contra bases aéreas do antigo regime sírio de Bashar al-Assad, a T4 e a de Palmyra, na região central da Síria.

O maior dano causado pelos foguetes anônimos do Líbano foi o de reavivar o temor dos moradores de que permanecem inseguros em suas cidades fronteiriças, principalmente em Metula e Kiryat Shmona. Cerca de 60 mil habitantes fugiram dos foguetes do Hezbollah, diários, a partir de 8 de outubro de 2023, um dia depois da invasão do Hamas que matou 1.200 israelenses, e muitos ainda não voltaram, esperando a estabilização do cessar-fogo. Prefeitos da região questionaram o general Ori Gordin, do Comando Norte, que declarou, faz poucos dias, que não via por que os refugiados não retornavam às suas casas. “Você ainda acha isso?” — quiseram saber.

O prefeito de Metula, David Azulay, declarou que não vai permitir “a normalização dessa situação”, a de cessar-fogo interrompido por foguetes. “Isso é um fracasso, é a política de contenção que existia antes de 7 de outubro”. Mas não só os israelenses protestaram. O primeiro-ministro libanês Nawaf Salam não gostou dos disparos dos foguetes, que podem “arrastar o Líbano à uma nova guerra”. Afinal, o Líbano tem agora um governo livre da pressão e opressão do Irã e da Síria, exercidas pelo Hezbollah.

“Todas as medidas de segurança e militares devem ser tomadas para mostrar que o Líbano decide sobre questões de guerra e da paz”, disse Salam. O exército libanês informou ter encontrado e desmantelado as rampas de lançamento dos seis foguetes.

Fim do Shabat, ao anoitecer do sábado, as ruas de Israel foram tomadas por manifestantes protestando contra a demissão do chefe do Shin Bet, Ronen Bar, barrado por liminar da Suprema Corte, e do próximo ameaçado de demissão pelo primeiro-ministro Netanyahu, talvez neste domingo, a procuradora-geral Gali Baharav-Miara.

Muitos manifestantes conclamaram uma greve geral, apoiados pelo líder do partido Os Democratas e pelo chefe da oposição, os dois Yair — um Golan e outro Lapid. O Fórum das Famílias dos Reféns e Desaparecidos exigem a libertação dos 25 reféns vivos ainda com o Hamas, em Gaza. E todos querem novas eleições.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu resiste. Tentou afastar na sexta-feira, e não o conseguiu, ainda, o chefe do Shin Bet, Ronen Bar, que está investigando um escândalo no coração do governo, o Catargate, já com dois funcionários do alto escalão já presos. Ele quer submeter a Justiça ao poder executivo — logo ele, que responde por três processos de corrupção em andamento. Desafia a Lei como se fosse o presidente Donald Trump. Também vetou uma comissão de inquérito independente sobre a falha que permitiu a invasão do Hamas em 7 de outubro, e que, certamente, o indiciará como seu principal responsável. E retornou à guerra em Gaza, que lhe garante a sobrevivência política, ao trazer para a coligação os votos dos extremistas e ultranacionalistas do partido Poder Judeu, do ministro Itamar Ben-Gvir, que renunciou na trégua de janeiro e agora foi reinstalado no governo, irregularmente.

Os jornais online israelenses mostravam na noite de sábado impressionantes multidões em vários pontos de Israel. E publicavam os discursos de reféns libertados, de familiares de reféns cativos e de líderes políticos. A manchete do jornal Libération está correta: Israel está à beira de uma guerra civil.