Uma breve história dos mercenários

Grupo de mercenários na África

São mercenários. Foram soldados, veteranos de guerras que continuam na luta, agora por dinheiro, contratados por empresas privadas que os alugam para missões especiais em vários países, como golpes de estado, proteção a multinacionais em regiões hostis, a navios em águas com piratas e a bilionários inseguros. Até grupos terroristas os contratam.

A atriz e ex-Embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas, Mia Farrow (foto), planejou enviar mercenários para pôr fim ao genocídio em Darfur, no Sudão, em 2008, mas não concluiu o acordo que negociava com a empresa americana Blackwater, e afinal limitou-se a arrecadar dinheiro para um socorro humanitário.

O aluguel de mercenários é um negócio que cresce muito no mundo. Duas empresas, a americana DynCorp International, e a britânica Armor Group, têm até ações nas bolsas de Wall Street e da London Stock Exchange. Difícil estimar quanto vale esse mercado, certamente bilionário, porque as transações orbitam paraísos fiscais, ou usam criptomoedas — e muitas vezes os pagamentos são em ouro ou diamantes, como nos países africanos em que reina hoje uma poderosa contratante russa de mercenários, a Wagner.

Desde o governo Bill Clinton a Casa Branca tem preferido os mercenários aos próprios soldados. Entre 2007 e 2012, o Departamento de Defesa gastou 160 bilhões de dólares com exércitos privados.

O professor de Estratégia da Faculdade Internacional de Assuntos de Segurança, do Departamento de Defesa dos EUA, Sean McFate, ex-paraquedista e ex-chefe de uma empresa privada de mercenários na África (foto), explica que um batalhão de infantaria custa 110 milhões de dólares por ano, enquanto o equivalente alugado sai por 99 milhões de dólares. Com uma diferença: em tempos de paz os soldados continuam recebendo o soldo, mas os mercenários, não.

O grupo sul-africano Executive Outcomes, já extinto, recebeu 1,2 milhão de dólares por mês para acabar com uma rebelião em Serra Leoa, na África Ocidental, e o conseguiu, enquanto a ONU pagava 47 milhões de dólares para uma força de paz inoperante. Teve dois mil combatentes quando treinava as forças armadas de Angola para encerrar décadas de conflito com o grupo guerrilheiro angolano UNITA. Implodiu por corrupção, em 1993.

Exército de aluguel tem outra vantagem: os mortos não vão ensacados para os países que os contrataram. São estrangeiros. Governos os ignoram e jornalistas não os encontram para entrevistas, “mídia-fóbicos” e clandestinos. Não existem para as Convenções de Genebra, que tratam das leis internacionais de Direito Humanitário. O silêncio beneficia a todos e mantém o negócio atrativo e em ascensão. Os americanos só souberam que havia mais mercenários na guerra do Iraque, 53 mil, do que soldados, 35 mil, quando um grupo da empresa Blackwater matou 17 civis na praça Nisour, em Bagdá — um massacre que escandalizou o mundo. Soldados de aluguel, em inglês, são chamados de “soldier of fortune”, “hired gun” e “contractors”.

Guerras na Crimeia, em dois tempos distintos.

Desde a tomada da Criméia pela Rússia, em 2014, mercenários de 50 países se enfrentam na Ucrânia. No terceiro dia da atual invasão russa, o chanceler ucraniano Dmytro Kuleba publicou um apelo a voluntários no Twitter. Em pouquíssimo tempo, cerca de 20 mil estavam inscritos para a “Legião Internacional de Defesa Territorial da Ucrânia”, a maioria da Europa, com mil alemães e 200 croatas, e Estados Unidos, 500 da República de Belarus, alguns japoneses e até brasileiros.

Voluntários, não mercenários, eles têm que pagar as próprias passagens. Os veteranos de guerras foram direto para o front. Outros, sem nenhuma experiência, para campos de treinamento, ou para tarefas logísticas e funções civis de ucranianos mobilizados para o exército. Como não falam a língua, são separados em grupos em que predomina o inglês, o francês, o espanhol, russo e alemão.

Um dos brasileiros que se inscreveram, Tiago Rossi, instrutor de tiro em Maringá, no Paraná, disse a agência pública de radiodifusão alemã Deutsche Welle que “estava a caminho” e que atuaria como franco-atirador. Em grupos de WhattsApp e Telegram muitos brasileiros lamentam não ter dinheiro para a viagem, algo em torno de 7 mil reais até a Polônia, e pedem doações. Alguns são até qualificados, como ex-soldados da força de paz no Haiti, ou ex-policiais militares.

Do lado da Rússia não foi preciso anúncio para reforçar as tropas na Ucrânia. O presidente Vladimir Putin pediu a seu ministro da Defesa, Sergei Shoigu, em reunião do Conselho de Segurança transmitida ao vivo por TV, em 11 de março, que fosse encontrar “no meio do caminho aqueles que estão querendo ajuda para chegar à frente dos combates”. Chamou-os de “voluntários”, mas, na verdade, seriam mercenários, já que pagos. O “Movimento de Libertação da Ucrânia” foi formado por veteranos da guerra na Síria, os sírios que defenderam o presidente Bashar al-Assad contra rebeldes, mais os fiéis do Estado Islâmico unidos a iranianos e soldados do Hezbollah. Talvez por isso várias cidades ucranianas ficaram muito parecidas com as devastadas Idlib, Aleppo e Douma, na Síria.

A Rússia também conta com um poderoso grupo de mercenários, Wagner, ligado a militares russos e ao oligarca Yevgeny Prigozhin, amigo de Putin procurado pelo FBI por interferir na eleição presidencial de 2016 para a Casa Branca. Nele há chechenos, sírios e líbios — uma tropa de 6 mil combatentes. Tornou-se conhecido quando soldados franceses deixaram o Mali, o sétimo maior país africano, em 2020. Em Bamako, a capital, foi recebido com cartazes “Amamos Wagner” e “Obrigado, Wagner”, e fotos do maestro e compositor Richard Wagner coladas nos muros. O nome teria sido inspirado no apelido da artilharia da era soviética: “a orquestra”.

Wagner é mais temido do que apreciado. Na República Centro-Africana, seus homens combateram uma rebelião com massacres, tortura e sequestros, segundo relatório da ONU. Em troca, obtiveram licenças para exploração de minas de ouro e diamantes. Na Líbia, eles cometeram execuções sumárias em apoio a chefes tribais que ambicionavam o governo. No Sudão, sufocaram, violentamente, as manifestações contra o ditador Omar Hassan al-Bashir.

A história dos mercenários começa na Bíblia. Em 1Crônicas 19:7 está descrito: “Alugaram trinta e dois mil carros e seus condutores, contrataram o rei de Maaca com suas tropas, o qual veio e acampou perto de Medeba, e os amonitas foram convocados de suas cidades e partiram para a batalha.”

E mais, em 2Reis 7:6: “Pois o Senhor tinha feito os arameus ouvirem o ruído de um grande exército com cavalos e carros de guerra, de modo que disseram uns aos outros: “­Ouçam, o rei de Israel contratou os reis dos hititas e dos egípcios para nos atacarem!”

O professor Sean McFate lembra os primeiros que se armaram de mercenários depois do Velho Testamento: o Rei Shulgi, de Ur (2029-1982 AC); Xenofonte, militar discípulo de Sócrates, contratou um exército de gregos que batizou de Dez Mil (401-399 AC); Cartago os usou nas Guerras Púnicas contra Roma (264-164 AC), incluindo 60 mil guerreiros de aluguel sob comando de Hannibal. Quando Alexandre o Grande invadiu a Ásia, em 334 AC, acrescentou cinco mil estrangeiros às suas tropas, e enfrentou as forças persas que contavam com 10 mil gregos. Foram mercenários alemães que salvaram Júlio César na batalha de Alésia contra os gauleses, em 52 AC.

Guerras Púnicas

Os mercenários continuaram guerreando por toda a Idade Média. Reis, famílias ricas, a Igreja, Papas — todos os tiveram para defesa da honra, sobrevivência, deus, roubo e vingança. Usou-os até mesmo o filósofo, diplomata e escritor Thomas More para proteger a sua República utópica. Curioso é que, por essa época, os mercenários eram chamados de condottieri, italiano para contractors, o atual nome deles em inglês.

As guerras mudaram no século 17, as armas mais destrutivas e superbatalhas que incluíam até 50 mil combatentes. Os mercenários ainda predominavam, lembra o professor Sean McFate. “O conceito de patriotismo não estava relacionado ao serviço militar. Isso só viria mais tarde, com o crescimento do nacionalismo, Napoleão e a guerra convencional”. Em 1648, com a paz de Vestefália, que encerrou a Guerra dos 30 Anos (1618-1648), líderes de todos os lados resolveram acabar com o mercado livre de mercenários, responsabilizados pela devastação na Europa central. Para os exércitos privados, quanto mais guerras, mais salários. A paz não era um bom negócio. O florentino Nicolau Maquiavel opinava que os condottieri transformavam os guerreiros em animais, e os cidadãos, em covardes.

Aconteceu que os mercenários sem guerra, desempregados, passaram a cercar cidades e a exigir resgate em dinheiro para libertá-las. E, quando partiam, despediam-se: “Até o ano que vem”. A cidade toscana de Siena pagou a extorsão 37 vezes, entre 1342 e 1399. A última participação conhecida de mercenários, até o final do século 20, foi em 1854, na guerra da Crimeia, onde de novo estão lutando, hoje, nos dois lados da invasão russa da Ucrânia.

As Convenções de Genebra I e II, em 1977, baniram a figura do mercenário. E determinaram que ele “não tem o direito de ser um combatente ou prisioneiro de guerra”. Mas aos poucos eles foram voltando, com a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria. O mercado se abriu com conflitos nos Bálcãs, guerras estourando no Mali, Congo, Iêmen, os carteis de drogas na América Latina, Al Qaeda e Estado Islâmico, no Oriente Médio. Os Estados Unidos passaram a contratar exércitos para suas guerras no Iraque e no Afeganistão. Foram 50 mil soldados terceirizados, em 2018, segundo o próprio Departamento de Defesa.

O professor Sean McFate ia buscar seus mercenários entre filipinos, colombianos e sul-africanos que tinham lutado em forças especiais. “São como camisetas, baratas nos países em desenvolvimento. É a globalização da força privada”. Alguns grupos sublocavam tarefas aos nativos dos locais em que trabalhavam, daí formando subgrupos que assumiam o lugar deles quando partiam para outras missões. Assim, hoje, há pequenas empresas privadas em vários países, como a Mister White e Mister Pink, no Afeganistão, herança da empresa britânica ArmorGroup.

Os exércitos privados oferecem pilotos de helicópteros, tanquistas, militares familiarizados com vários sistemas de defesa antiaérea, sabotadores, agentes treinados em extrair prisioneiros, soldados para o deserto ou para florestas — um supermercado de produtos para qualquer missão. O que não existe é mulher mercenária. McFate afirma que nunca encontrou uma sequer.

Mercenários colombianos presos depois do assassinato do presidente do Haiti

A empresa de aluguel de mercenários CTU Security, em Miami, recrutou militares da reserva das forças especiais colombianas, em maio e junho de 2021, e os mandou ao Haiti para proteger alguns dignitários locais. Aos poucos, a missão foi mudando. E em 7 de julho o grupo invadiu a residência do presidente Jovenel Moïse e o matou na cama dormindo com a mulher, Martine, que ficou ferida. Como eram “protetores”, passaram pelos soldados haitianos sem problemas. Depois do assassinato, 18 dos 26 mercenários colombianos foram presos, e outros três, mortos. Um escapou, talvez o comandante: Mario Palacios, 43, que integrou a força Delta de combate aos narcotraficantes na Colômbia. Ele conseguiu entrar na vizinha Jamaica, onde acabou preso por violar leis de imigração. Foi então que aceitou cooperar com o FBI, desvendando a operação para matar o presidente haitiano, em troca de ser deportado para Bogotá. Mas, numa escala no Panamá, o destino dele mudou: voou para a prisão em Miami.

Um dos donos da CTU Security, Arcangel Pretelt, oficial da reserva das forças especiais colombianas, afirmou que os Estados Unidos sabiam que o presidente Moïse seria morto e substituído por um antigo juiz da Corte Suprema do Haiti, Windelle Coq-Thelot. Ele foi desmentido. E desapareceu.

Em 3 de maio de 2020, um grupo de mercenários americanos desembarcou numa praia venezuelana. Missão: matar o presidente Nicolas Maduro. Horas depois, quem não estava morto, estava preso. O fracasso foi assumido por Jordan Goudreau, antigo soldado dos Boinas Verdes dos EUA e chefe da Silvercorp, na Flórida. Inevitável lembrança: a tentativa frustrada de invadir Cuba, em 1961, com o desembarque de exilados cubanos anticastristas na Baía dos Porcos, treinados e dirigidos pela CIA e com apoio das Forças Armadas dos EUA.

Um dos mais famosos mercenários de todos os tempos, “Mad Mike” Hoare morreu ao completar 100 anos, em 2019, em Durban, na África do Sul. Era um soldado britânico que serviu na Índia e em Myanmar durante a segunda Guerra Mundial. Em época de paz, trabalhava como contador, em Londres — mas, ao mesmo tempo, organizava safaris na África, que desbravou em motocicleta, quando buscava a lendária cidade perdida no deserto de Kalahari.

O espírito de aventura e o conhecimento da África o tornaram mercenário. Sua primeira missão, contratado pela CIA, foi sufocar uma rebelião no Congo, considerada uma ameaça pelos Estados Unidos. A imprensa americana o glorificou, embora existissem provas de que ele e seus homens tivessem cometido roubos, estupros, tortura e assassinatos.

“Eu gostaria de ter nascido na época de Sir Francis Drake”, ele disse ao jornal The Washington Post, lembrando o capitão inglês e corsário condecorado pela rainha Isabel I como cavaleiro, em 1581. “Sim, velejando, roubando os espanhóis, e quando trouxesse o butim para a Rainha Elizabeth, ajoelhado, ela me faria um cavaleiro. Me tornaria respeitável — mesmo sendo um ladrão.”

“Mad Mike” era racista: só contratava brancos, e mais de uma vez disse que “os africanos eram animais”. Essa impressão ficaria mais forte ao lutar contra o rebelde congolês Moise Tshombe, em 1961, e ter três de seus mercenários canibalizados. Sua tropa, apelidada de Gansos Selvagens, liquidou as forças da tribo Simba, mais numerosas, mas menos treinadas, e que acreditavam que um feiticeiro as tivesse blindado contra balas. A partir daí, os Gansos ficaram famosos como “Gigantes Brancos”. E recebiam 300 mil dólares por mês de Mobutu Sese Seko, que governou a República Democrática do Congo, antigo Zaire, por 30 anos sangrentos.

Em outro encontro com Simba, em Kisangani, em novembro de 1964, os Gigantes Brancos libertaram 1.600 missionários europeus e americanos feitos reféns.

O ator Richard Burton atuou no papel de um mercenário inspirado em “Mad Mike”, no filme que em inglês tinha o título de Gansos Selvagens, mas que, em português, ficou sendo Selvagens Cães de Guerra.

O filme o tornou mais famoso ainda, lançado em 1978, e coincidiu com sua primeira grande derrota ao tentar derrubar o governo socialista das ilhas Seychelles. Ele e 40 homens disfarçados de jogadores de rúgbi desembarcaram no aeroporto de Mahé, mas um dos fuzis AK-47 que levavam escondidos foi descoberto na alfândega. Houve um tiroteio, com um morto de cada lado, e “Mad Mike” sequestrou um avião da Air Índia na pista e voou cerca de sete mil quilômetros, até Durban, onde ele e os Gansos foram presos.

Condenado a 10 anos de prisão, Mike Hoare serviu três anos, beneficiado por uma anistia presidencial. Mudou de vida, ao sair: foi para a França, onde passou 20 anos estudando uma seita cristã conhecida por Cathars, sobre a qual escreveu um romance histórico. Voltou em 2009 para a África do Sul. Teve cinco filhos em dois casamentos, e oito netos. Quando lhe perguntaram o que o levou a ser mercenário, “Mad Mike” respondeu:

“A mística é inexplicável – a mística sobre o soldado com homens fortes. É algo mais do que apenas soldado por dinheiro. O momento da verdade vem às 3 da manhã em um buraco. Seu amigo foi morto ou ferido, e nenhum dinheiro pode compensar…  Mas há uma alegria indescritível de ser parte de uma unidade bem disciplinada…





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