Rosental, Rosentelex, Rosentalcom.

(Este perfil de Rosental Calmon Alves foi publicado na revista Imprensa de set/out 2021)

O "Grande Guru", segundo o jornal El Pais.

Do “Rosental, repórter policial de O Jornal”, ao “Rosentelex” e atual “Rosentalcom”, o professor Rosental Calmon Alves deixou um rasto de inovações fundamentais para o jornalismo — e não só o brasileiro. Lá está ele, via zoom, em sua casa em Austin, no Texas, bebericando uma taça de Malbec rosé argentino, depois de um dia de trabalho no Knight Center for Journalism in the Americas. “Está um calor danado”, ele comenta.

(Aviso: somos amigos, mas não nos víamos há muitos anos.)

O jornal espanhol El País descreveu Rosental: “Grande teórico do jornalismo na web, grande guru ibero-americano do advento da internet, homem adiantado a seu tempo”. Que o Guru releve que o publiquemos em papel, primeiro, e na internet, depois. Deveria ser o contrário. Ainda não cometemos o “midiacídio”, palavra que ele inventou, no longínquo 1999, para prescrever que só a morte do sistema de fazer jornalismo da Era Industrial abriria as portas para o novo mundo do jornalismo da Era Digital. “Somos a geração da transição.”

O Guru também receita surpreender os leitores. Tento agora, com uma informação pouco conhecida: Rosental Calmon Alves ia ser padre, frequentou seminário jesuíta. Abandonou-o, mas continua católico aos 69 anos. A religião importa, porque “todo mundo tem que ter um norte na vida.” Outra recomendação do Guru: dialogar com os leitores, que não são mais passivos, e contar como é o trabalho para produzir um artigo. Então, conto que Rosental me deu muito trabalho. Tentei entrevistá-lo por duas horas, mas pulularam lembranças de coberturas em que nos encontramos, rivais em jornais concorrentes: voamos com P.C. Farias de Bangcoc para SP; estivemos na crise que levou à invasão americana no Panamá; em El Salvador; em reuniões do FMI e Banco Mundial; no primeiro lançamento de um ônibus espacial após o desastre da Challenger, e o dia a dia em Washington na época da moratória brasileira, encontros Reagan-Gorbachev, a queda do Muro de Berlim, eleições americanas… Digna de nota dessa época foi a declaração do nosso embaixador nos EUA, Marcílio Marques Moreira, ao saber que o Rosental não tinha morrido no Bateau Mouche, no réveillon de 1988: “Muito desagradável ter sido dado como morto”. Ele passava o réveillon navegando defronte a Copacabana, mas em outro barco.

O que mais define Rosental é o adjetivo primeiro. Ele foi o primeiro brasileiro a receber uma bolsa de estudos da Fundação Nieman, da Universidade de Harvard, em 1987. Em 1991, ele criou o primeiro serviço de notícias em tempo real do Brasil — uma parceria entre o Jornal do Brasil e a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Quatro anos depois, 1995, foi o primeiro a pôr na internet um jornal brasileiro, o JB online, um dos pioneiros na América Latina. Em 1997, deu o primeiro curso de jornalismo online na Universidade do Texas, em Austin. Depois, em 1999, idealizou e organizou o Simpósio Internacional de Jornalismo Online (ISOJ, em inglês), uma conferência anual que organiza até hoje. Com um financiamento de dois milhões de dólares da Knight Foundation, em 2002, ele estabeleceu o Knight Center for Journalism in the Americas. E aí vieram, com sua ajuda determinante, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), o Fórum de Jornalismo da Argentina (FOPEA), do Paraguai (FOPEP) e várias outras similares (a mais recente, a Ajor, Associação de Jornalismo Digital, que reúne dezenas de startups jornalísticas no Brasil, fundada em maio de 2021). E em 2012, ele formatou o primeiro programa de curso aberto online massivo (MOOC, em inglês), único no mundo especializado em jornalismo, pelo qual já passaram 250 mil estudantes de 200 países até agosto deste ano. Claro que, diante disso tudo, Rosental entrou para o Hall of Fame da Associação Nacional de Jornalistas Hispânicos, em 2018.

O início da trajetória que o levou até à taça de Malbec rosé, às vezes branco, do nosso reencontro, foi o ano de 1968, quando ele tinha 16 anos. Já dava os primeiros sinais de pioneirismo: ia fundar uma Associação Estudantil de Imprensa, não fosse detido antes, com alguns companheiros. A ditadura estava no auge. Era “O Ano Que Não Terminou”, descrito por Zuenir Ventura em livro. Rosental estagiou na redação de O Jornal, no Rio, e logo se mudou para Vitória, em 1969, onde morou com o irmão e outras cinco pessoas, entre elas Gerson Camata, senador que seria assassinado 49 anos depois, aos 77 anos.

“Como Camata acordava cedo para fazer um programa de rádio às 7 horas, eu comecei a ir com ele e me ofereci para trabalhar de graça”. Dias depois, numa barbearia, Rosental conheceu o jornalista capixaba Rubinho Gomes, que o convidou: “Apareça lá nO Diário”. Mais que aparecer, deve ter sido uma aparição: terno, gravata, um enorme gravador pré-cassete Philips à mão

“Comecei como repórter e me pagavam 100 cruzeiros em vales semanais (o salário-mínimo era de CR$ 150,00), e sem carteira assinada.” Ele já tinha recebido, antes, o primeiro dinheiro como jornalista, dez cruzeiros, com a venda de uma entrevista com o diretor do Serviço de Proteção ao Índio, “O que há com nossos índios”. Queria guardar a nota com a foto de Getúlio Vargas como lembrança. Mas a gastou no bar Britz, o preferido dos jornalistas de Vitória, na época.

Rosental também teve sorte em sua ascensão. Em busca de um disco-voador, em Marataízes, com um grupo d’O Diário, que afinal não passava de um balão meteorológico, ele encontrou Carlos Imperial, conhecido produtor artístico. “Pedi uma entrevista e ele me convidou para ficar na casa dele, porque estava dando uma festa que tinha, entre os convidados, o tricampeão mundial Tostão, saído de uma operação em Houston”. Outro exemplo de sorte, anos depois, em 1996: só um brasileiro deve ter visto na revista The Economist o anúncio classificado de um concurso na Universidade do Texas. Foi ele. O resto dependeu, é claro, de competência: disputou com 200 candidatos e conquistou a cátedra John S. e James L. Knight. “O segundo presidente daqui gostava muito dessa história. Numa festa de Natal, ele me pediu: -Conta aí como você veio parar aqui…” O próprio Rosental considera “sorte muito grande” ter sido convidado para dar aula na Universidade Federal Fluminense, aos 21 anos. “Eu era mais jovem que meus 55 alunos”. Um ano depois, acumulou o cargo de professor na Universidade Gama Filho. E ele ainda estudava jornalismo.

Rosental zanzou pelas rádios Tupi e Nacional, ao voltar de Vitória para o Rio, até que se fixou no Jornal do Brasil, o seu sonho desde sempre, em 1973 e até 1995, com uma interrupção de um ano em que foi editor-assistente da revista Veja.  A carreira de correspondente internacional começou em 1979, quando foi fazer freelance para a IstoÉ e o Jornal do Brasil em Madri, mas o JB o contratou como correspondente em Buenos Aires, em seguida para o México e as guerras da América Central — e, depois de um segundo período em Buenos Aires e um ano em Harvard, finalmente, o JB o mandou para Washington. Nessa época os colegas correspondentes já o conheciam como Rosentelex, pela facilidade com que dedilhava seus textos no telex, plugado com a redação, enquanto a maioria dos repórteres datilografava nos quartos de hotéis e depois entregava os originais no correio, ou em agências de notícias, ou os lia por telefone para cabines em seus jornais, soletrando palavras.

“Em 1988, eu tive meu momento Aha!” — lembra Rosentelex na transição para Rosentalcom. Foi num seminário do MIT Media Lab em que aprendeu o que estava por vir com a revolução digital. O mundo começou a mudar. E Rosental foi com ele, com a audácia de sempre se atirar nos alvos de sua intuição. É aprender fazendo. Ele cita o poeta andaluz don Antonio Machado Ruiz: “Caminante no hay camino, se hace camino al andar”.

Hoje, jornal de papel ele só lê um, regularmente: o New York Times de domingo. Para se manter informado, bastam-lhe as newsletters, “um grande fenômeno”. Elas superam “um dos grandes problemas do jornalismo online — o saco sem fundo de um fluxo interminável”. Do Brasil ele lê o Meio, lançado pelo jornalista Pedro Dória, que elogia muito; e o Poder Drive e o Poder360, do jornalista Fernando Rodrigues, a quem ele mandou uma mensagem cinco minutos depois de saber que a Folha de S. Paulo o havia demitido: “Foi a mão de Deus”, escreveu. É que “ele estava totalmente equipado para criar a um site para cobertura de Brasília similar a um de sucesso nos EUA, o Político. “E ele fez melhor do que eu faria”, em termos estratégicos, ao lançar primeiro uma newsletter paga e depois o site aberto. No seu cardápio matinal, Rosentalcom inclui ainda a Nexo, “muito boa também”. No final da tarde em Austin, já noite no Brasil, ele assiste o Jornal Nacional, pela Globo Internacional: “Eu acho que o (William) Bonner tem feito um trabalho excelente”.

Quando foi para os EUA, Rosental prometeu à mulher, Cláudia, que não ficariam mais do que quatro anos. Os quatro filhos do casal se tornaram adultos, se formaram em universidades americanas, e 25 anos se passaram. Ele vai completar 70 anos em dezembro. Tem “tenure”, ou estabilidade, o que lhe dá mais vantagem que os ministros do STF: não pode ser demitido e a universidade não lhe fixa prazo algum para se aposentar. “Um professor daqui, hoje com 99 anos e ainda na ativa, ganhou o Prêmio Nobel em 2019, aos 97. Ele criou a bateria que permitiu a popularização dos celulares e recentemente criou a bateria que permitirá a popularização dos carros elétricos. O professor John Foster Dulles, que o Elio Gaspari chama de O Primeiro Brasilianista, morreu aos 95 anos de idade, quando preparava as aulas para mais um semestre na nossa universidade”.

Rosental é um workaholic,um trabalhador compulsivo. Poderia trabalhar sete meses e meio por ano, indo à universidade duas vezes por semana. Mas não: ele se dedica muito mais, e até se cria funções extras. Uma delas é o Knight Center, que ele diz ser um labor of love — um trabalho de amor, “uma forma de ajudar meus colegas jornalistas na transição digital”. Outro é participação em projetos jornalísticos, como o Texas Tribune, jornal digital sem fins lucrativos, e que se tornou um grande sucesso. “Faz anos que vou a conferências de jornalismo mundo afora e ouço o Texas Tribune ser citado como um exemplo a seguir”. Ele ainda faz parte de 15 Conselhos Administrativos e Conselhos Consultivos importantes, entre eles o American Journalism Project, Nieman Foundation, na Universidade de Harvard, e o Conselho Reitor da fundação criada por Gabriel Garcia Marquez, que dá os Prêmios Gabo de Jornalismo. É também o presidente do conselho da Universidade de Columbia, que concede o Maria Moors Cabot, o prêmio de jornalismo internacional mais antigo do mundo.

O repórter Rosentelex foi sempre furão. Agora, ele dá furos no universo acadêmico, onde se coloca como um “repórter infiltrado”. Chamam-no de “doutor”, e ele corrige: “Não sou do doctorland, mas do journalismland”, um “evangelizador digital”. Ele começou a ensinar jornalismo online quando tinha que explicar aos alunos, primeiro, o que era internet. Hoje, todos são “jornalistas” — tuiteiros, blogueiros, youtubers , publicam no Facebook, no Instagram e participam de infindáveis listas no WhatsApp, e daí o naufrágio numa perigosa cacofonia, um ecossistema fértil para fakenews e formação de tribos virtuais, um fenômeno que em inglês tem um nome, homophily, “a tendência a se relacionar apenas com pessoas que pensam como você”. É a infodemia, a infoxicação. Por essa confusão toda, Bolsonaro tem uma live toda quinta-feira, e o presidente de El Salvador, candidato a ditador, diz que o jornalismo não precisa existir mais. Donald Trump tinha 80 milhões de seguidores no Twitter, 30 milhões no Facebook e 20 milhões no Instagram. A vacina para essa nova pandemia é a alfabetização jornalística, a explicação, para a população, qual a diferença entre jornalismo e o que parece ser jornalismo. Rosentalcom inverteu a frase “meios de massa” para “massa de meios”. De um sistema mídia-cêntrico para outro, “eu-cêntrico”. A pós-cacofonia poderá até valorizar o trabalho jornalístico, realçando a busca da verdade e baseado em princípios éticos e deontológicos, como está demonstrando a cobertura da Covid-19 em alguns jornais: “O jornalismo está salvando vidas”.

O jornal impresso se tornou subproduto do digital, mas muitos estão afundando devido à ruptura de seus modelos de negócio.

Exceção dos três grandes jornais dos EUA: o New York Times, com a maior redação de sua história, 1.700 jornalistas, e 8 milhões de assinantes em sua plataforma digital; e o Washington Post e o Wall Street Journal, que bombam com o paywall, uma porta que se abre aos que pagam assinatura.

“Mas os paywalls não são uma solução mágica que serve para todos”, avisa Rosentalcom. “Podem, sim, ser parte da solução”. Cerca de 2 mil jornais fecharam nos últimos 15 anos, nos EUA, principalmente os locais. Mas brotam, atualmente, por toda parte, novos modelos de empresas jornalísticas nativas digitais, incluindo muitas sem fins lucrativos. Como membro do Conselho de Diretores do American Journalism Project, Rosental participa de um esforço de 50 milhões de dólares para ajudar jornalistas a criar jornalismo local sem fins de lucro. “É muito simples. Você forma uma organização jornalística como se fosse uma empresa, só que ela não tem donos para receber eventuais lucros. Se gastarmos menos do que faturamos, chamamos o que sobra de superávit e, em vez de usá-lo para distribuir dividendos aos acionistas, o reinvestimos na operação ou formamos um fundo de reserva para os períodos de vacas magras”.

Para Rosental, “entramos numa outra Era Gutenberg e estamos num momento de ruptura e de transição. Não dá mais para continuar fazendo jornais do mesmo jeito”. Ele receitou, numa

entrevista recente: “Precisamos, todos, fazer uma urgente autocrítica. E a primeira reflexão nos leva a depor as armas da arrogância e assumir a batalha da humildade. A comunicação, na família, nas relações sociais e no jornalismo, não é mais vertical. O diálogo é uma realidade cultural. Os oráculos morreram. É preciso ouvir o leitor. Com respeito. Com interesse real, não como simples jogada do marketing. O leitor não pode ser tratado como um intruso.”

Ao leitor informo, seguindo a recomendação de Rosentalcom, que o fim, aqui, é determinado pelo espaço. Fim.

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