Ah, Jerusalém!

Foto: Jerusalem.com

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As pedras da fundação do mundo brilham douradas sob o sol, e prateadas ao luar. Dão cor e identidade a Jerusalém. Testemunharam a criação do primeiro homem, a morte e a ressurreição de Jesus, a vida de cidadãos ilustres como Abraão, Isaac e David, e a cavalgada de Maomé aos céus. Ê o que contam a Bíblia, o Talmude e o Alcorão, os guias oficiais da Terra Santa.

Pedras três vezes consagradas. Os judeus as veneram no Muro das Lamentações. Os muçulmanos cultuam o rochedo rachado pelo impulso da ascensão de Maomé, na Mesquita de Omar. E os católicos as seguem pela Via Dolorosa. Na paisagem bíblica, surgem empilhadas, equilibradas, formando cercas. Os arqueólogos as reviram. Judeus ortodoxos e palestinos as atiram, como armas. Turistas as visitam. São muralhas, minaretes, sinagogas, igrejas e mesquitas.
Pedras de calcário dolomita que reergueram 25 jerusaléns destruídas em 25 séculos de guerras entre judeus, gregos, romanos, cristãos e muçulmanos. Pedras da discórdia ainda hoje. Yerushalaim, em hebraico, É a “Cidade da Paz” – e tanto ódio provoca! Em árabe, Al Kuds, “A Santa” – e sempre tão cruel. A Bíblia (Zacarias, 8:3) chama Jerusalém de a “Cidade da Verdade” – ela que está minada por contradições Étnicas e religiosas. Cidade do “Verbo” – não do diálogo. Cidade dos Espelhos” do escritor israelense Amos Elon – “espelhos que são metáforas que a verdade de cada religião atribui a cidade que reflete seu passado e seu presente”.

Dez medidas de beleza foram
  conferidas ao mundo; nove
  foram tomadas por Jerusalém,
  e uma pelo resto do mundo.
  (Talmude)

A alma de Jerusalém está cercada por 4,5 quilômetros de muralhas reconstruídas em 1537 pelo sultão Suleiman, o Magnífico, no traçado romano original do século II. Pode-se dar a volta por cima delas em quatro horas. Dentro, apenas um quilômetro quadrado. Ê o bastante para conter séculos de história das três grandes religiões monoteístas. O judaísmo imperou de 1003 a.C. até o ano 70 d.C., e depois se intercalaram o cristianismo (de 300 a 638 e de 1099 a 1187) e o islamismo (de 638 a 1099 e de 1187 a 1917). Hoje convivem Alá, Jeová e Jesus. E o ar “É saturado com orações e sonhos” como o ar poluído sobre as cidades industriais. “Difícil respirar” – comenta o poeta israelense Yehuda Amichai.
A alma de Jerusalém tem oito portas. As quatro principais se abrem como uma rosa-dos-ventos. A imponente Porta de Jafa era a saída para o porto, à Oeste. Ê a mais movimentada. A Porta de Damasco abre-se para a cidade de à e para a Síria, ao Norte. Por ela entra-se no bairro muçulmano. A Porta dos Leões aponta para o Leste, para Jericó. E a Porta de Sião está na direção de Hebron, ao Sul. Uma porta ainda se tornará a mais importante do mundo, se nela for mesmo bater o Messias tão esperado pelos judeus. Os árabes a fecharam há séculos para impedir a visita. Chama-se Porta Dourada, ou “Porta da Compaixão”. A Porta Nova foi furada em 1887 para dar acesso direto ao bairro cristão. Por uma “porta de serviço”, a Porta do Esterco, penetra-se no monte Moriah, que muitos consideram o local mais carregado de energia espiritual do planeta.

Aqui, segundo o Gêneses, Deus criou o primeiro homem. E Abraão sacrificaria o filho Isaac, não fosse a intervenção de um anjo. Ainda aqui o rei Salomão construiu o Templo de um império que se estendia do Eufrates ao Egito, em 1043 a.C., e do qual resta só a muralha ocidental, conhecida como Muro das Lamentações. As frestas entre as pedras adoradas estão cimentadas de papeizinhos com pedidos de fiéis. Também já É possível enviar por fax uma mensagem para Deus, graças a um novo serviço inaugurado pela companhia de telecomunicações israelense. A ligação para Deus, em Jerusalém, “É local”. A mesquita dourada de Omar, com o rochedo de Maomé, e a de Al Aksa, que marcou a visita histórica do presidente egípcio Anuar Sadat a Israel, estão praticamente por cima do muro. Não apenas uma cidade dentro da outra, mas uma sobre as outras, como mostram as escavações ali ao lado, na cidadela de David. Os muçulmanos deram o terceiro lugar religioso do Islão para Al Kuds, “A Santa”, depois de Meca e Medina, na Arábia Saudita. Atrás do monte Moriah, logo À esquerda, está o Santo Sepulcro, repartido entre seis diferentes seitas cristãs. A soma das três religiões, num espaço tão pequeno, cria uma espiritualidade quase palpável.
Judeus de quipás balançam-se fervorosamente diante do Muro, muçulmanos de kafias e descalços curvam-se na direção de Meca, e cristãos tocam a terra que enterrou Jesus, ao som do chofar, do canto do muezim nas minaretes e dos sinos no Santo Sepulcro, num cenário de Velho Testamento. Ver Jerusalém, e enlouquecer: muitos peregrinos acabam internados como mais um João Batista, outro Messias. Em cinco dias ganham alta, e voltam À realidade.

Se eu me esquecer de ti, oh Jerusalém,
  esqueça-se a minha dextra da sua destreza.
  Apegue-se a minha língua ao paladar,
  se não me lembrar de ti,
  se não preferir Jerusalém à minha maior alegria.
  (Salmos)

Nem todas as pessoas passeiam nas ruas da Cidade Velha de Jerusalém dialogando com Deus, como diz o escritor Amos Elon. Há muitas que se concentram no shekel, a moeda dos tempos bíblicos que circula ainda hoje em Israel. O shuk, o mercado árabe, vive engarrafado de gente. A multidão é um caleidoscópio. Passam rabinos com seus grandes chapéus e trancinhas, os árabes de kafia e gelabiah, turistas com mochilas e filmadoras, franciscanos, coptas, drusos e armênios, e soldados com metralhadoras. Os mercadores ficam À porta de suas lojas convidando quem passe pelas ruelas para um negócio, que às vezes acaba numa disputada barganha. Vendem tapetes feitos à mão, vestidos beduínos, bijuterias, jogos de café típicos, caixinhas de madrepérola e bugigangas. Alguns sentam-se em tamboretes, contemplativos, chupando o narguilé, a máquina de fumar, e permanecem assim durante horas.

E folgarei em Jerusalém,
  e exultarei no meu povo;
  e nunca mais se ouvirá nela 
                                       voz de choro nem voz de clamor                                 .   
Reconstrução da antiga Jerusalem. (Foto:  commons.wikimedia.org)

Reconstrução da antiga Jerusalem. (Foto:
commons.wikimedia.org)

  E edificarão casas, e as habitarão;
  e plantarão vinhas
  e comerão o seu fruto.    
  (Isaías)

Fora das muralhas, Jerusalém espalha-se pelos montes Herzl, Scopus e das Oliveiras. Uma cidade contrastante, moderna, construída com a mesma pedra dourada. O antigo e o novo foram reunificados com a Guerra dos Seis Dias, em 1967, depois de 20 anos divididos por uma linha de cessar-fogo com a Jordânia, estabelecida pelas Nações Unidas. O Muro das Lamentações e o museu dos mártires do holocausto nazista, Yad Vashem, marcos do judaísmo, integraram-se na capital contestada de Israel. Os palestinos querem Al Kuds, a Cidade Velha, como a capital de uma futura Palestina. O Vaticano propõe torna-la um patrimônio sagrado comum às três grandes religiões monoteístas. E os judeus de todo o mundo repetem nas festas de Pessach, a Páscoa, que coincide com a primavera: “No ano que vem em Yerushalaim”. A unificação tornou-se lei constitucional, aprovada pela Knesset, o Parlamento, em 30 de julho de 1980. Mas um novo destino para Jerusalém foi selado com o aperto de mãos entre o primeiro-ministro Yitzhak Rabin e o líder da OLP, Yasser Arafat.

5 comentários sobre “Ah, Jerusalém!

  1. Meu querido Rabino Moises…. ao começar a ler seu texto, ia me lembrando do salmo “se eu me esquecer de ti, oh Jerusalém….”, que em poucas linhas a frente você reproduziria. Seu texto é soberbo… Jerusalém, em palavras, é o que você descreve….mais que isto, só pode sentir-se estando lá mesmo. Brilhante Rabi….brilhante.

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  2. Caro Rabino: Embora não tendo ainda o privilégio de conhecer pessoalmente a Cidade Santa, nunca estive tão perto de Jerusalém do que agora, depois de ter lido seu artigo belíssimo e fascinante. O verdadeiro jornalista é aquele que leva o leitor junto consigo, ao cumprir a sua pauta. Obrigado Rabino. Finalmente viajamos juntos.

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